Policial pede delegacia contra gangues
Dimitri do Valle
De Curitiba
Os crimes cometidos por gangues deveriam merecer uma atenção especial das autoridades envolvidas na segurança pública da Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Esta é a tese de um delegado da Polícia Civil com 25 anos de profissão. Ele, que não quer ser identificado, defende a criação de uma delegacia especializada na investigação de delitos cometidos pelas gangues.
Esse movimento vem crescendo. Se não tomarmos providências rapidamente, teremos problemas iguais aos verificados no Rio de Janeiro, alerta o delegado. O policial não quer ser identificado para não sofrer pressões de seus superiores. É um assunto muito delicado. A criação da delegacia passa por vontade política, justifica.
Há três semanas, as gangues não páram de ser assunto da crônica policial de Curitiba. A vítima mais recente da onda de assassinatos e confrontos armados foi o estudante Paulo César Gandolfi, 17 anos. Ele morreu na noite de domingo quando saía de uma festa no Colégio Estadual Hasdrubal Bellegard, no bairro Sítio Cercado. O rapaz foi identificado como integrante de uma gangue rival do bairro e foi morto a facadas por três rapazes.
Colegas de Gandolfi estiveram ontem na Delegacia de Homicídios. Eles saíram em diligências com os policiais para relatar o que testemunharam próximo ao colégio, além de prestar novas informações que possam levar a prisão dos suspeitos. Para o delegado ouvido pela Folha, só a delegacia de homicídios trabalhando na investigação de mortes de autoria desconhecida não dá conta do recado.
Com passagens por distritos policiais de Pinhais e Piraquara, o delegado relata que os delitos cometidos pelas gangues, formadas por adolescentes e maiores de 18 anos, são muito graves. Todos são crimes hediondos, afirma. O medo da população acaba dando respaldo para as gangues agirem com mais violência. O policial conta que tentou investigar por conta própria o assassinato de um comerciante no Bairro Novo A, em Curitiba, há três semanas, mas não obeteve a colaboração nem de pessoas de seu círculo de amizades que residem na área.
Não consegui fazer com que as testemunhas do crime, que são minhas amigas, denunciassem os criminosos. As gangues impõem a lei do silêncio na comunidade, observa. Quando trabalhava em Pinhais, ouviu relatos de professores que aprovavam integrantes de gangues para não sofrerem represálias.
Nem os policiais civis estão salvos de serem alvos de uma gangue. Dependendo da localidade, a dupla de agentes que for apurar um assassinato deve pedir reforço. Atender ocorrência sozinho se tornou perigoso até para os próprios policiais. Na Vila Verde, tive de recuar pela primeira vez na vida, quando um morador se negou até mesmo a prestar o nome da pessoa que havia sido assassinada, avisa.
O embrião destes bandos, segundo o delegado, nasceu a partir das torcidas organizadas dos clubes da capital. É revoltante saber que em dias de jogos essa gente faz o que quer dentro dos ônibus e invade um monte de estações tubo, denuncia. O policial acha que a Justiça deveria decretar o fim das torcidas organizadas em Curitiba. Tinha que fazer que nem em São Paulo, onde todas as torcidas organizadas foram proibidas de continuar nos estádios, lembrou.





