Quem precisou de serviços de saúde ultimamente em Londrina e região teve que ter, além de paciência para suportar até sete horas na fila, sorte para encontrar médico disponível. No final de semana, por exemplo, o Hospital Cristo-Rei de Ibiporã teve problemas para atender normalmente por falta de pediatra. Na segunda-feira, a Central de Regulação de Leitos da 17 Regional de Saúde buscava vaga em unidade de terapia intensiva (UTI) para cinco pacientes graves.
No último dia 19, a Folha acompanhou o desespero do policial civil Vidal Antônio Fontão. Com 49 anos e histórico de problemas cardíacos, ele passou mal no início da noite e procurou atendimento no pronto-socorro da Santa Casa. Mesmo sendo conveniado ao Sistema de Assistência à Saúde (SAS), foi recusado porque, segundo a assessoria do hospital, o atendimento estava restrito a urgências e emergências por falta de médico no plantão e porque um outro tinha ficado doente. A Santa Casa alegou que está tentando contratar um profissional. No Pronto-Atendimento Municipal (PAM), o policial nem desceu do carro porque também estaria faltando médico. A coordenadora do PAM, Sônia Vieira, disse no dia seguinte que o problema teria sido excesso de doentes. ''Atendemos uma demanda atípica de 400 pacientes'', afirmou. Segundo ela, dois médicos faziam o plantão naquela noite.
Fontão só conseguiu ser atendido no Hospital Universitário (HU) porque chegou inconsciente e ''entrou'' como caso urgente. A assessoria do HU informou que, por causa do excesso de pacientes, o atendimento normal no PS-adulto foi suspenso às 10h30 daquele e só foi retomado às 8h00 do dia seguinte.
A situação irritou doentes e acompanhantes que procuraram o hospital. Com arritmia cardíaca, o aposentado Antônio Gabriel, 82 anos, teve de esperar de 12h30 até 19h30 por atendimento. ''É um desrespeito com o Estatuto do Idoso'', reclamaram os filhos do aposentado, Élcio e Rosana Gabriel. Desde às 15h00 esperando com suspeita de fratura no nariz, o universitário Jessé Miguel Silva, 30 anos, questionava às 19h40: ''Para onde é que vai o dinheiro que deveria ir para a Saúde?''
Em consulta telefônica feita esta semana em algumas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Londrina, a Folha comprovou que não haviam médicos nos postos do Vivi Xavier e do Maria Cecília, ambos na região norte. A deficiência nas UBSs fez aumentar a demanda em postos maiores, como o PAM, e em hospitais secundários como os da Zona Norte e Zona Sul. A Secretaria Municipal de Saúde tem 360 médicos espalhados pelas UBSs (incluindo Programa Saúde da Família), pronto-atendimento Infantil e Adulto e na Maternidade Municipal.
A ex-diretora-executiva da Secretaria, Margareth Shimiti (ela deixou o cargo ontem e ainda não foi substituída), admitiu que as filas estão maiores no PAM mas ponderou que o feriado prolongado, que abrangeu as UBSs, refletiu nesse aumento. Ela garantiu que, a partir de 10 de julho, dois novos médicos vão reforçar o atendimento pela manhã e à tarde. A diretora considerou que existem dificuldades para contratar mais profissionais, principalmente no Programa Saúde da Família (PSF) que, por sua natureza, poderia conter o aumento da demanda nos pronto-socorros. A dificuldade de contratação, continuou Margareth, estaria na jornada integral de oito horas e nos ganhos menores em comparação com outras opções existentes no mercado.
A diretora-geral do Hospital Cristo Rei, Ana Lúcia Mesquita, disse que também está com dificuldades para preencher um período da escala de pediatras aos sábados e domingos. O hospital, afirmou, não encontra profissionais disponíveis. O salário, segundo ela, não é impedimento, já que o ganho chega a R$ 300,00 por 12 horas mais produtividade.
Felizmente, o policial Fontão se recuperou. Ele recebeu alta e já está em casa.

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