Policiais voltam atrás e inocentam agricultor
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segunda-feira, 07 de julho de 1997
Paulo Pegoraro Cascavel 
Um caso de grande repercussão na região de fronteira com o Paraguai envolvendo o crime organizado pode tomar novo rumo a partir de depoimento em juízo de dois soldados da PM de Santa Helena, que em março participaram de flagrante contra o agricultor Reni Callegaro, 36 anos. Cinco automóveis roubados teriam sido apreendidos em um sítio da família de Callegaro, que fica à margem do lago de Itaipu. Segundo revelou a advogada do agricultor, Ana Pereira, os soldados Pedro da Silva e Claudiomiro Marconi acabaram desmentindo a acusação.
Callegaro ficou preso sob custódia desde 14 de março na Polícia Federal de Foz do Iguaçu porque ele correria risco de vida se permanecesse em Santa Helena. Ele acabou envolvido em disputa entre policiais, disse a advogada. Ontem, no final da tarde, o advogado Carlos Esteves informou ter obtido alvará de soltura expedido pelo juiz Gederson Susin Susin, de Toledo, substituto na Comarca de Santa Helena, e que seu cliente já está em casa. Callegaro havia sido preso quando chegava ao seu sítio, no qual, segundo versão da PM de Santa Helena, estavam três Santana e dois Gol, todos 96, roubados em São Paulo, a espera de serem passados para o Paraguai.
Os depoimentos foram tomados pelo juiz Gederson Susin, com quem está um pedido de relaxamento da prisão de Callegaro. A Folha tentou ouvir o juiz ontem, mas ele não foi localizado. Segundo Ana Pereira, que acompanhou os depoimentos, os soldados disseram ter testemunhado lavratura de flagrante forjado, atendendo ordem do comandante no destacamento, o aspirante a oficial Durval Tavares Júnior. Poucos dias depois, Tavares foi transferido para Curitiba.
O caso envolvendo Reni Callegaro é cercado de acusações - feitas inclusive pelo próprio agricultor - vinculando policiais com quadrilhas. Em 6 de março, na véspera de sua prisão, ele havia sido absolvido em outro processo pelo mesmo motivo, no qual foram condenados o ex-delegado de Santa Helena, Natálio Barbosa , e o mecânico Domingos Nichetti. Três policiais tiveram prisão provisória decretada. Segundo a advogada Ana Pereira, Callegaro fez acusações sob pressão.
Segundo a PM, Callegaro confessou receber pagamento para permitir a passagem pelo sítio. Mas segundo Ana Pereira, os automóveis teriam sido apreendidos nas proximidades, em uma reserva da Itaipu, o que agora está sendo admitido pelos dois policiais. Ana prefere não apontar possíveis motivações para o flagrante desmentido, mas especula que Callegaro deve ter visto muita coisa comprometedora e movimentação de carros roubados na região do lago, por ter propriedade na área.
O agricultor teria sido submetido à violências físicas logo após a prisão. Os advogados já haviam contestado a prisão no Tribunal de Justiça, que não aceitou a alegação de farsa no flagrante, e entendeu haver requisitos básicos para a preventiva. Só que até agora ela não foi decretada, embora ele permaneça preso desde 14 de março, observa Ana Pereira. O inquérito envolvendo as acusações contra Reni Callegaro já passou por dois delegados especiais, e agora é presidido por Carlos Daniel dos Reis (de Cascavel), que está em férias.


