Conhecido por ‘‘Kérica’’, travesti não teria concordado em dividir dinheiro com PMs; foi espancado e morreu por hemorragia interna


Erika Wandembruck
Especial para Folha
De Curitiba

A Delegacia de Homicídios de Curitiba está investigando o assassinato do travesti ‘‘Kérica’’, que teria sido espancado por quatro policiais militares. O jovem, cujo o nome não foi identificado pela polícia até ontem à noite, foi agredido durante tentativa de extorsão ocorrida durante a madrugada. Com base nos depoimentos colhidos, o delegado Vilson Toledo Alves informou que os PMs tentaram levar o dinheiro do travesti, mas ele teria se recusado a entregar e por isso apanhou. A assessoria de imprensa da PM nega a agressão. Segundo a assessoria, os policiais ofereceram socorro ao travesti, que teria apanhado de um cliente. Mesmo assim, a PM vai abrir inquérito e os policias devem depor hoje pela manhã na corporação.
O incidente com ‘‘Kérica’’ foi na Rua Piquiri (centro) onde ele marcava seus programas. De acordo com o depoimento de outros travestis, Kérica teria chegado em casa ontem por volta das 5 horas, dizendo que apanhou de quatro PMs. Segundo os travestis Alexandre Lima Neto, conhecido como ‘‘Jaque’’ e Ronaldo de Assis, que moravam com Kérica, a agressão foi porque não quis dar o dinheiro para os PMs. ‘‘Apesar de estar toda machucada, ela estava lúcida e afirmou estar cansada de ter que dividir o seu dinheiro suado com a polícia’’, disse Lima Neto. Kérica morreu no apartamento, por hemorragia interna.
O travesti Mateus Ramos Júnior, que estava com a vítima durante a abordagem policial confirmou o espancamento. Para o delegado Alves, há indícios de que os policias teriam cometido o crime. Hoje deve depor outra testemunha que garante ter sido agredido pelos PMs, na mesma noite.
Lima Neto que também faz ponto na mesma rua afirma: ‘‘Os PMs nos obrigam a dar pelo menos metade do que ganhamos na noite.’’ Segundo ele, quem não dá a quantia que eles pedem, são espancados e expulsos do local.
O delegado deve enviar digitais de Kérica para Maranhão, onde teria nascido e acredita que em uma semana saberá o nome da vítima.

mockup