Conseguir tirar a farda pode ser a operação mais difícil na rotina de um policial militar. Contra o gesto, aparentemente simples para outros profissionais, a ameaça de um inimigo que, com táticas de guerrilha, tenta pôr fora de combate o homem dentro do uniforme.
Para tomar de assalto a vida de alguns policiais, esse adversário aproveita as circustâncias da própria atividade que torna a profissão uma das mais vulneráveis à sua ação, ao lado dos controladores de vôo, plantonistas de hospitais e jornalistas, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Invisível no início, o inimigo número 1 da polícia tem nome: estresse.
Quando se instala, implanta na vítima o que se convencionou chamar Síndrome de Burnout, união de duas palavras em inglês ''burn'' e ''out'', que significam ''queimar'' e ''exterior'', respectivamente.
Seria o mesmo que dizer que, ao ser exposto a níveis altos de estresse, o profissional é incinerado física e emocionalmente. No caso do policial militar, para ter aversão à farda é um passo.
''Passei uma fase em que, ao sair para a rua, não conseguia ver as pessoas de uma maneira diferenciada, nivelando todas as pessoas, vendo-as com desconfiança. Você não consegue diferenciar quem é quem, vê cada um como um potencial marginal'', lembra o 2º sargento Marcos Johas, do Pelotão de Choque, que trabalha há 17 anos na PM.
O sargento diz que não se deve tapar o sol com a peneira e que o estresse pode arrastar um policial violento para o meio das ruas. A família também não é poupada. ''O povo brasileiro passa por uma situação difícil, como problemas financeiros. O militar não é diferente. O estresse pode provocar a má conduta de policiais, que se tornam grosseiros com a população. Há reflexos na família. A gente fica irritado. Quem tem costume de ingerir álcool, o que não é o meu caso, o problema se torna uma bomba'', destaca Johas que, aos 40 anos, formou uma família com cinco filhos, o mais novo de apenas 10 meses. Johas reconhece que não procurou ajuda por machismo.
A Polícia Militar (PM) paranaense tem um efetivo de aproximadamente 18 mil homens. Desse universo, alguns rompem a barreira do preconceito e batem à porta do Serviço de Ação Social da PM (SAS), em Curitiba, que registra cerca de 400 atendimentos de militares com o problema ao mês.
''A maioria não assume que está doente. Já os que nos procuram, aceitam o tratamento, que pode ser individual ou de grupo, com duração de até dois meses, dependendo do caso. Primeiro é feita uma perícia médica e, se houver necessidade, o policial pode ser encaminhado para um internamento'', explica a assistente social do SAS, sargento Lina Mara de Fátima Piginiscki.
O estresse é uma doença que não leva em consideração a máxima do ''antes só do que mal acompanhado'', preferindo a companhia de outras enfermidades. O subcomandante do 5º Batalhão da PM, capitão Altivir Cieslak, 37 anos, escapou de morrer em 1991 ao ser baleado no peito, durante uma reintegração de posse no Distrito de Lerroville (50 quilômetros de Londrina). Mas teve que brigar contra gastrite e úlcera nervosas, passando por duas cirurgias em 1998 e este ano, consequências do estresse.
''Quando há troca de tiros, com feridos e mortos, procuramos afastar o policial que estava na operação para que consiga se recuperar física e mentalmente'', explica Cieslak. A assistente social do SAS lembra um caso de um policial que chegou a tentar suicídio oprimido pela doença.
Na graduação no curso de Direito, o capitão Cieslak defendeu tese com o tema ''A Polícia Que a Mídia Não Vê'' e lembra que a cobrança da sociedade sobre o policial, reforçada pela imprensa, é uma bala na agulha do estresse.

mockup