Sete pessoas presas, sete armas de fogo apreendidas, cerca de 130 policiais acionados e uma pergunta: como a Vila Marízia, bairro-favela mais antigo de Londrina e cravado em plena Área Central, chegou a esse ponto? Até ontem, era esse o balanço do ''arrastão'' que passou por diversos barracos da Marízia com o respaldo de um mandado de busca e apreensão coletivo expedido pela 1 Vara Criminal de Londrina.
A operação começou por volta das 4 horas. Setenta policiais militares com cavalaria, 50 policiais civis e nove delegados fizeram revistas simultâneas nos barracos de pessoas pré-identificadas como suspeitas. A principal delas era Reginaldo Vieira Delgado, 20 anos, o Japonês, apontado como chefe do crime na Marízia. Na casa dele e de outros membros da quadrilha, foram apreendidos três revólveres calibre 38, duas pistolas de calibres 380 e 765, uma espingarda calibre 12 e uma carabina calibre 44, a maioria com a numeração lixada. Além de muita munição para essas armas, também havia dois projéteis de fuzil e fotografias mostrando outros armamentos.
Entre as apreensões ligadas a tráfico de drogas, estão 330 gramas de maconha, duas balanças usadas para pesar substâncias entorpecentes e R$1.877,95. A polícia afirma que o dinheiro, encontrado com Delgado, seria produto de venda de drogas porque estava trocado em notas de R$1 e R$2, além de R$150,00 só em moedas. Relógios de pulso possivelmente furtados e aparelhos de comunicação completaram o fruto das buscas.
Delgado foi preso com a mãe, Sueli Fátima Maria da Silva, 42 anos, o primo Alexandre Vieira de Jesus, 18, um irmão e uma irmã adolescentes. Os outros detidos foram Marcos de Andrade Justino, 25, foragido da Colônia Penal Agrícola, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC) e Marcelo Marcelino do Carmo, 24, foragido da cadeia de Assaí, onde cumpria pena por homicídio.
O delegado de Homicídios da 10 Subdvisão Policial (SDP), Joaquim Melo, afirmou que Delgado é suspeito de participação ''em quase todos'' os assassinatos registrados na região da Vila Marízia nos últimos quatro anos. ''Ele nunca foi preso por homicídio, mas há indícios de que ele ordena as mortes desde que era adolescente.'' Peritos farão exames de confronto de balística nas armas apreendidas para constatar se foram usadas em crimes.
Os suspeitos detidos negaram envolvimento com homicídios em Londrina. ''Para a polícia, eu sou culpado por tudo que acontece. Inocente a gente não é, nesse mundo ninguém é santo. Mas eu só assumo porte de arma, não matei ninguém'', declarou Delgado. ''Lá no bairro está todo mundo marcado para morrer, minhas meninas nem saem de casa, como podem dizer que a gente comanda o crime?'', questionou Sueli, que disse trabalhar num bar. Ela admitiu que seus filhos tiveram diversas passagens pela polícia, mas disse que nunca teve conhecimento de seus delitos.
Também foram recolhidos 31 pássaros silvestres que estavam em cativeiro irregular. As aves foram encaminhadas para a Polícia Florestal.
A Vila Marízia, que já há algum tempo figura entre os bairros com maior número de homicídios da cidade, ficou ainda mais violenta nos últimos meses.
A onda de assassinatos foi aberta com a morte de Jefferson Silva Oliveira, 15 anos, em um bar da Vila Marízia, no dia 24 de setembro. Na ocasião, o próprio irmão de Delgado, de 17 anos, foi baleado no abdômen.
Quatro dias depois, o auxiliar de laboratório Valdesil de Souza, 32 anos, foi vítima de latrocínio na Avenida Duque de Caxias. À época, testemunhas disseram ter visto os autores do crime correndo em direção à Vila Marízia. A mesma avenida voltou a ser palco de homicídio no último dia 20, quando a vítima foi o estudante João Paulo Kock, 24 anos. (Colaborou Fernando Rocha Faro)

mockup