Policiais acusados de liberar suspeita de rapto de criança
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de outubro de 1998
James Alberti 
Dois policiais militares são acusados de prender e liberar a mulher que raptou a menina Jéssica de Oliveira, de 14 dias, na quarta-feira passada, no calçadão da Rua XV de Novembro, centro de Curitiba. Eles teriam detido a acusada pouco tempo depois do crime, mas não a levaram para interrogatório. Três horas mais tarde a mesma pessoa teria tentado raptar outra criança na Rodoferroviária.
A atitude dos soldados revoltou o delegado do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas (Sicride) do Paraná, Harry Herbert. Se os policiais foram negligentes, vou encaminhar denúncia, disse. Não estou comprometido com ninguém. Temos meios legais para puni-los.
O delegado adiantou que ainda não está acusando os soldados, que devem prestar depoimento no Sicride ainda nesta semana. Conforme Herbert, os soldados foram comunicados e atenderam a ocorrência na hora. Ele diz não saber porque a acusada foi liberada com facilidade, como diz. De uma forma ou de outra eles tomaram conhecimento do fato e ficaram cara a cara com a suspeita, disse Herbert.
O delegado disse ter ficado desapontado, já que este pode ser o primeiro caso não resolvido do ano. Até então, 48 crianças tinham desaparecido, mas todos os casos foram solucionados, afirma. Queremos tranformar o desaparecimento num fato inédito, disse ele, reprovando a negligência dos policiais.
Na opinião de Herbert, o pouco caso poderia ter feito mais uma vítima - um casal que mora junto com o catador de papelão Auriclóves de Oliveira e a mulher Rosângela de Fátima Bernardes, pais de Jéssica. O crime só não se concretizou porque os pais da segunda garota, de 5 anos, desconfiaram da mulher e fugiram correndo.
Devido às características do crime, Herbert descartou que o rapto tenha ocorrido para a venda da criança. Ele acredita que seja um crime diferente dos rotineiros. Tem algo estranho, que não conseguimos entender, disse. Para o delegado, a criança, por ser negra, dificilmente seria vendida no Brasil e seria difícil retirá-la do País.
Herbert também descartou que o crime possa ter sido cometido pela ex-traficante de crianças Arlete Hilú, que teria características semelhantes à mulher acusada pelo crime. O delegado prefere acreditar na hipótese de vingança de algum conhecido, embora não tenha indícios que confirmem as suspeitas.


