Polícia reclama: não há vestígio
Polícia reclama: não há vestígio
DivulgaçãoEstrada corta a Reserva Indígena de Dourados, no Mato Grosso do SulQuando o Dossiê Guarani foi apresentado por Roseli Arruda, em 96, a Funai pediu à Polícia Federal que investigasse as denúncias. O delegado federal Lázaro Moreira da Silva comandou as investigações, que dois meses depois foram concluídas com algumas reticências e, pelo menos uma evidência concreta.
O inquérito conclui, por exemplo, que o índio guarani Romão Gomes da Silva havia sido assassinado com golpes de enxada na cabeça. Até a arma do crime, com manchas de sangue da vítima, foi encontrada em um touceira de mato perto do local onde ele havia se suicidado.
Mas as investigações sobre o crime também se perderam num labirinto. O Conselho Indígena, que tem autoridade dentro da aldeia, nos apresentou uma menina de 13 anos como responsável pelo homicídio. Não consigo entender como uma menina pode matar e enforcar um homem. Ela foi ouvida na Polícia Civil, mas não confirmou nem desmentiu ser autora do homicídio. Ela contou histórias confusas, como se estivesse bastante alheia ao acontecimento. Em dado momento, fechou a boca e só abria para dizer que cometeria suicídio quando chegasse na aldeia, relata o delegado Moreira da Silva, que meses depois seria transferido para a Delegacia da Fronteira, no município de Ponta Porã.
Os outros casos denunciados no Dossiê Guarani foram definidos como inconclusivos pelo inquérito. O próprio delegado explica porque: Não existem vestígios materiais. Os indígenas não têm cemitério e sepultam seus mortos em regiões diferentes. É difícil até proceder a exumação do cadáver, e esta será uma das complicações para o trabalho do legista Nelson Massini. O caso de Romão foi uma exceção, porque estava muito recente, lembra o delegado.
Segundo ele, as investigações tiveram que se basear quase que exclusivamente em depoimentos. O Conselho Indígena é extremamente violento. Espanca os índios de forma brutal e criou dentro da reserva um clima de medo. Aqueles que poderiam esclarecer alguma coisa em seus depoimentos têm medo, afirma.
Diante dos resultados das investigações e de novas denúncias sobre desmandos na aldeia, a Fundação Nacional do Índio (Funai) decidiu jogar duro. O então presidente do órgão, Sulivan Silvestre de Oliveira, determinou pessoalmente, através de despacho assinado no final de 97, uma devassa na aldeia. Além das denúncias de tráfico de armas e bebidas, exploração do trabalho dos índios pelos próprios índios, violência e homicídios, a própria Funai estava sob suspeita.
Sulivam queria saber como e onde estavam sendo investidos os recursos federais enviados para a aldeia. Os resultados dessa devassa, realizada no início do ano passado, não se tornaram públicos. Mas, dois meses depois, ele nomeou Alexandre Abreu, um homem de sua confiança, diretamente ligado ao seu gabinete em Brasília, para assumir o comando da Funai e da Reserva Indígena em Dourados.
Abreu, que já foi cinco vezes campeão brasileiro de judô, reconheceu então, do alto de seus mais de dois metros de altura, que tinha a missão de pacificador da aldeia. A Reserva tem um único problema. A falta de terras. Os índios estão cada vez mais confinados. Terena e guaranis/kaiowás são duas culturas diferentes, com metas e visões do mundo distintas. O conflito é latente numa situação destas. Mas não há como acusar ou culpar uns ou outros, sentenciou. (P.S.M.)





