Marcos Zanatta
De Maringá
A Polícia Civil de Paranavaí abriu inquérito para apurar a morte da dona de casa Maria de Fátima Gouveia, 29 anos, ocorrida durante o parto do quinto filho, na sexta-feira da semana passada. O companheiro da vítima, o servente de pedreiro Clayton Cavalcanti Da Broi, 29 anos, denunciou à polícia que até ontem não havia recebido qualquer satisfação sobre a morte da mulher. ‘‘Fui atrás de todo mundo e ninguém me explicou nada. Nem o atestado de óbito consegui. A saída foi procurar a polícia’’, disse ontem à Folha.
Segundo versão do pedreiro, a mulher teve todos os filhos de parto normal, não apresentou nenhum problema durante a gestação e tinha a saúde perfeita. ‘‘Ela fez todo o acompanhamento médico pré-parto com o ginecologista Shigueru Sonehara’’, afirma Da Broi. ‘‘Os problemas começaram quando o médico marcou o nascimento para 29 de fevereiro. Quando chegou o dia ela não sentia nada, o médico estava viajando e foi marcada uma nova data, dia 15 de março’’, conta.
Somente no dia seguinte, na sexta-feira da semana passada, Maria de Fátima começou a sentir contrações. Como a dor começou a ficar mais intensa, o marido resolveu levar a mulher para o Hospital São Paulo, onde deveria ser feito o parto. ‘‘Paguei R$ 5,00 para um vizinho levar a gente lᒒ, recorda. ‘‘Ela deu entrada no hospital por volta das 14 horas. Entrou em parto normal, sentindo apenas contrações, depois disso foi só desespero’’, afirma Da Broi.
Cerca de uma hora depois, segundo Da Broi, as enfermeiras começaram a andar rápido pelos corredores, aparentando estar desesperadas. Ele acha que nenhum médico participava do parto. ‘‘Chamaram uma ambulância para levá-la à UTI, mas não levaram.’’ Somente quase duas horas depois, afirma ele, o médico Shigueru Sonehara chamou a família e comunicou a morte. ‘‘Ela estava desfigurada, toda inchada, e o bebê nasceu com problemas.’’
O médico Shigueru Sonehara confirmou à Folha que Maria de Fátima teve uma gestação normal. Ele disse que chegou ao hospital poucos minutos depois da gestante e que um pediatra também acompanhou o parto. ‘‘De forma alguma a paciente estava só com enfermeiras no momento’’, garantiu. Segundo Sonehara, pouco antes de Maria de Fátima entrar em trabalho de parto, começou a sentir falta de ar. ‘‘Realmente chamamos uma ambulância para encaminhá-la à UTI, mas não houve jeito porque a criança estava nascendo.’’
A situação da gestante começou a piorar e os médicos chamaram um cardiologista. ‘‘Como a falta de ar se agravou, passamos a monitorar o pulmão, mas ela passou a apresentar paradas cardíacas’’, justifica o médico. ‘‘Mesmo usando todos os recursos disponíveis no hospital não conseguimos reverter o quadro. Foi uma fatalidade, não tínhamos mais o que fazer’’, diz Sonehara. Segundo ele, a mudança na data do parto não deve ter influenciado no quadro da paciente.
O bebê, uma menina de 3,6 quilos, pode estar com um edema cerebral porque ficou sem ar durante a crise respiratória da mãe. O hospital chamou o IML, que deve divulgar o laudo em dois dias, segundo informou o médico responsável pelo órgão, Luiz Antonio Ricci. ‘‘Nós estamos acompanhando o caso e temos o maior interesse em esclarecer a morte’’, disse o secretário de Saúde de Paranavaí, Valter Ismael Volpato. No ano passado, o município foi apontado pelo Ministério da Saúde como um dos melhores do País no atendimento à gestante e à criança. Volpato garante que nos últimos dois anos nenhuma gestante havia morrido na cidade.Médico diz que foi fatalidade; município foi apontado pelo Ministério da Saúde como um dos melhores do País no atendimento à gestante
Marcos NegriniMaria de Fátima: quinto filho Marcos NegriniO servente Clayton Cavalcanti Da Broi mostra a foto da mulher na primeira comunhão de um dos filhos: ‘‘Ela entrou em parto normal, sentindo apenas contrações, depois disso foi só desespero’’

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