Muita apreensão cerca a desocupação da Fazenda São José, no município de São Pedro do Paraná (94 km a oeste de Paranavaí), marcada para hoje. A propriedade invadida por aproximadamente 50 sem-terra no dia 5 de setembro tem 690 hectares com lavouras de mandioca, cana-de-açúcar, café e cerca de 1.400 cabeças de gado. O proprietário, Alcindo Cerci, disse ontem à Folha que os sem-terra estão destruindo a fazenda. ‘‘Depois que o governo anunciou que iria desocupar a área a situação piorou’’, desabafa.
Logo depois da invasão, conta Cerci, os sem-terra se apossaram de dois tratores e sumiram com 84 sacas de café que estavam depositadas na fazenda por uma torrefadora da região. ‘‘Os sem-terra ocuparam também as casas dos funcionários, destruíram móveis e se apossaram de eletrodomésticos’’, conta.
Desde o início do acampamento, os invasores vêm também matando e retirando gado da propriedade. Cerci calcula que pelo menos 40 bois que estavam prestes a ser comercializados para a quitação de dívidas foram mortos ou tirados da fazenda pelos sem-terra.
A neta de Cerci, Renata, disse ontem que no último domingo os sem-terra mataram oito animais e anteontem mais sete. ‘‘Não existe tanta gente no acampamento para comer tanta carne’’. Ela diz ainda que os sem-terra entraram na propriedade errada e já reconheceram isso. ‘‘Mas continuam destruindo tudo, ainda mais agora que terão que sair da área’’, lamenta. Claudia conta que Cerci está com 75 anos e ficou muito doente depois que a fazenda foi invadida.
A Polícia Militar confirma que os sem-terra estão matando gado e saqueando a propriedade. O tenente-coronel Gilberto Kummer, comandante do 8º Batalhão da PM de Paranavaí, diz que vai acompanhar a saída dos sem-terra da Fazenda São José. Ele afirma que as negociações estão devagar, mas acredita que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) desocupe a área hoje. ‘‘Não temos ordens para tirar ninguém, apenas garantir o transporte dos sem-terra que deixarem a área’’, avisa. Ele não sabe o que será feito com os que se recusarem a abandonar o acampamento da fazenda.
O coronel Kummer diz ainda que a Polícia Militar já está guardando a entrada da fazenda para evitar que os sem-terra levem animais ou bens da propriedade durante a desocupação. Kummer confirma que existe exagero por parte dos invasores, mas alega que eles estão desesperados. A Folha não conseguiu falar com nenhum coordenador do MST da região ontem em Querência do Norte (113 km a oeste de Paranavaí), onde fica a sede do movimento no Noroeste. Todos os líderes, segundo funcionários da cooperativa do MST na cidade, estavam viajando ou acompanhando os trabalhos nas áreas invadidas.

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