Silvana Leão
De Londrina
O 3º Distrito Policial (DP) de Londrina está investigando a morte de mais um interno da Casa de Repouso Doce Lar, localizado no Jardim do Sol (zona oeste). No início da semana, a Vigilância Sanitária visitou o local e abriu inquérito administrativo para apurar irregularidades. A fiscalização foi motivada por denúncia recebida pela Secretaria Municipal do Idoso, de que um interno teria morrido ali (Folha Cidades, edição de terça-feira).
O caso investigado pela polícia é o de Feiz Golmia, de 62 anos, que morreu no dia 19 de fevereiro depois de sofrer uma queda no asilo. Segundo sua filha, Samia Mara Golmia, ele chegou a ser levado para a Santa Casa e para o Hospital Universitário (HU) – sem que a família fosse comunicada pela entidade –, onde teria ficado em observação por dois dias. ‘‘Só ficamos sabendo do tombo, que aconteceu seis dias antes, quando recebemos a notícia de sua morte. Nos disseram que ele havia morrido de enfarte, mas levamos um susto quando vimos a quantidade de hematomas no seu rosto. Meu pai estava irreconhecível’’, conta Samia Golmia.
A família pediu que o corpo fosse encaminhado ao Instituto Médico-Legal (IML) para necrópsia e o exame constatou traumatismo crânio-encefálico (fratura craniana e hematoma subdural). ‘‘Estamos revoltados por terem nos omitido que ele (o pai) caiu e foi até internado’’, diz Samia Golmia. Segundo ela, Feiz Golmia sofria do mal de Alzheimer, doença que causa atrofia cerebral, e por isso a família procurou um lugar para interná-lo. ‘‘Minha mãe e meus irmãos moram em São Paulo e todos trabalham fora, inclusive minha mãe. Lá eu visitei várias clínicas e as melhores não tínhamos condições de pagar.’’
A família Golmia pagava R$ 400,00 por mês à casa de repouso e, de acordo com Samia, a mãe vinha visitar o marido com frequência. ‘‘Nós internamos meu pai há pouco mais de um ano e na época achei o local bom. Mas de uns meses para cá mudou uma das donas e o atendimento piorou muito. Estávamos inclusive vendo uma forma de tirá-lo de lá. No dia que conseguimos uma vaga numa clínica adventista ele morreu.’’
O inquérito policial para apurar o caso foi aberto há 14 dias. O delegado do 3º DP Jurandir Gonçalves André pediu o prontuário de atendimento do paciente à Santa Casa e ao HU. Neste último, consta no relatório enviado que Feiz Golmia foi internado por causa de uma queda e ficou internado em função de uma pneumonia. Já a Santa Casa respondeu que só poderá liberar o prontuário por via judicial. ‘‘A postura adotada neste tipo de caso depende de cada hospital. Eu já fiz ofício ao juiz e estou aguardando resposta’’, afirmou o delegado.
As proprietárias da casa de repouso Maria Aparecida Walter e Jacira Lima, foram intimadas a prestar depoimento amanhã no 3º DP. Elas afirmam que não chegaram a avisar a família sobre a queda do paciente porque imaginaram ter sido uma coisa banal. ‘‘Na hora só lavantou um pequeno galo. Nós o encaminhamos para a Santa Casa, onde foram feitos exames e constatado que não havia nada de grave. No outro dia, como o olho dele ficou meio roxo, o levamos para o HU, de onde foi liberado depois de dois dias em observação’’, explicou Maria Aparecida Walter.
As proprietárias dizem que tentaram falar com a filha de Golmia que mora em Cambé (no caso, Samia Golmia), ‘‘mas o número de celular que ela nos deu vivia desligado’’. Elas afirmam também que depois que voltou do hospital, o paciente permaneceu uns três ou quatro dias sem aparentar problemas, ‘‘andando e se comportando normalmente’’. Jacira Lima sustenta que se houve algum erro, foi dos hospitais que atenderam o paciente.
O médico que assinou o laudo de necropsia de Golmia, o legista Rogério Eisele, confirmou que as duas fraturas ósseas constatadas no exame eram muito extensas (uma na região fronto parietal mediana de 12 centímetros e outra na região parietal esquerda de 16 centímetros). O neurocirurgião Fahad Haddad, diretor-superintendente da Santa Casa, não pôde dizer que tipo de exame foi feito no paciente, pois estava fora do hospital e sem o prontuário de atendimento em mãos.
Haddad adiantou, porém, que em casos de queda, é rotina fazer o exame físico, verificar as lesões externas e submeter o paciente a raio-x. ‘‘Dificilmente uma fratura como a que foi constatada na necrópsia passaria despercebida em dois hospitais. A qualquer sinal de que existe algo mais grave um exame mais preciso, como a tomografia, é realizado.’’Filha acusa proprietárias da Casa de Repouso Doce Lar, em Londrina, que no início da semana chegou a sofrer fiscalização
Dorico da SilvaA FILHA Samia Mara: ‘‘Ficamos sabendo do tombo, que aconteceu 6 dias antes, quando recebemos a notícia de sua morte’’Álbum da famíliaO PAI