Poli levou três tiros e morreu por ''desacato''
Albari RosaJaira diante da foto do marido morto: nunca tivemos uma armaO segurança do Shoping Center Novo Batel, José Carlos Poli, 26 anos, voltava para casa de bicicleta depois de ter jogado futebol e bebido algumas cervejas com os amigos. Era 9 de fevereiro de 1997, um domingo. A mulher de Poli, Jaira, havia ido a igreja com a filha, de cinco anos. Tinha se despedido do marido por volta das 17 horas, num ponto de ônibus. Ali recebeu o último beijo. A menina Adriele, que nasceria nove dias depois, jamais conheceria o pai.
No caminho de casa, José Poli encontraria o soldado Carlos Roberto Leite Possebom. Depois de cair com a bicicleta, atordoado, Poli havia raspado com a bicicleta em um carro, de Adias Manuel Souza Júnior, que chamou a polícia. Possebom chegou a Vila São Pedro para atender a ocorrência. Três tiros atingiram o corpo do segurança. Na perna, numa das nádegas e no abdômem. Ao registrar o fato, são chamadas três testemunhas, todas políciais, entre elas o próprio Possebom. A justificativa para os disparos: desacato e resistência.
Jaira considera tudo um absurdo. Matar alguém por desacato?, questiona. Conforme ela, o marido não estava armado. Nunca tivemos arma. Nossa arma era a bíblia. Ela diz não saber como está o processo. Alguém sempre segura. Mas se a gente fosse conhecido, eles já tinham resolvido tudo, reclama. Ela, porém, não conhece ninguém influente. O soldado, entretanto, agora é tenente. Inconformada, Jaira prepara três processo contra o governo do Estado. Um, por danos morais - o marido foi chamado de vagabundo e ela teve que provar que era trabalhador. Outro, que pede uma indenização pela morte do marido. O terceiro, pensão para as duas filhas, até a maioridade.





