Sid Sauer
O bispo diocesano de Campo Mourão dom Mauro Aparecido dos Santos, considerou ‘‘totalmente deturpada’’ a reportagem exibida domingo à noite no programa ‘‘Fantástico’’, da Rede Globo, que dizia que cruzes estavam sendo erguidas em frente a paróquias de todo o mundo para alertar sobre o fim do mundo. ‘‘A cruz é um presente para Jesus Cristo na virada do milênio’’, disse o bispo à Folha. ‘‘Não existe nada a ver com fim do mundo.’’
Campo Mourão é uma das duas cidades do Paraná que já contam com a cruz. A outra é Santa Izabel do Oeste (70 km de Francisco Beltrão). Uma terceira cruz deverá ser instalada dentro de 15 dias numa paróquia de Curitiba. A cruz de Campo Mourão foi inaugurada no dia 18 de abril, ao lado da Catedral São José. Em todo o País, 46 cruzes já foram instaladas. A reportagem da Globo, feita em Portugal, mostrou cruzes iguais à de Campo Mourão, inclusive com a mesma oração - que estaria gerando o alerta - fixada em sua base.
Dom Mauro, que assistiu a reportagem no domingo à noite, não acredita que a matéria possa confundir a cabeça dos fiéis. ‘‘Se houver alguma coisa, falarei sobre o assunto na próxima missa que celebrar’’, ressaltou. Segundo ele, a Igreja já passou por turbulências mais sérias. ‘‘O cursilho chegou a ser acusado de fazer uma lavagem cerebral nas pessoas’’, lembrou.
O bispo negou que a Igreja seja contra a instalação das cruzes. ‘‘A cruz é linda e eu mesmo dei o apoio para que ela fosse instalada ao lado da Catedral’’, disse. A matéria apresentada pelo ‘‘Fantástico’’ foi feita em Portugal, onde a quantidade de cruzes, todas com 7,38 metros de altura e nas cores azul e branco, é grande. Para dom Mauro, a associação da cruz com o fim do mundo pode ter surgido devido ao ‘‘folclore’’ em torno do terceiro segredo de Fátima.
‘‘As pessoas costumam dizer que o terceiro segredo é o fim do mundo’’, lembra o bispo. ‘‘Mas isso só o papa sabe.’’ Os segredos foram anunciados por Nossa Senhora Aparecida durante aparições em Fátima (Portugal), entre 1914 e 1917. Para dom Mauro, as pessoas devem ver na cruz a salvação. ‘‘A cruz é sinal de libertação, de vitória e foi colocada com a preocupação de atrair para a Igreja aquelas pessoas que hoje estão afastadas’’, contou.
As cruzes são feitas numa fábrica de luminosos em Joinville (SC). O diretor da empresa, Aldo Andrade, conta que pegou o modelo padronizado da cruz em Portugal. ‘‘Foi a própria Igreja Católica quem nos passou o modelo’’, explicou. Segundo ele, muitas já poderiam estar instaladas se a empresa fizesse propaganda a respeito. ‘‘Mas foi a própria Igreja, em Portugal, que me pediu para fazer o trabalho sem divulgação’’, completa.
O Estado de São Paulo tem o maior número de cruzes já instaladas. ‘‘Ficamos chateados com a matéria exibida pela televisão porque ela não explicou direito o significado da cruz’’, disse. ‘‘Mas estamos esperando uma nova reportagem da Globo.’’

mockup