Polêmica compromete Escola Oficina
Desavenças após saída de coordenador-geral afetam trabalho realizado com crianças e adolescentes carentes em Londrina
Lucilia Okamura
O afastamento do coordenador-geral da Escola Oficina (zona norte de Londrina), Márcio de Jesus Filla, no mês passado, desencadeou vários problemas, como protestos, troca de acusações e dispensa de outras pessoas ligadas ao estabelecimento. Enquanto a situação não se normaliza, o trabalho desenvolvido na escola vem sendo prejudicado - crianças e adolescentes carentes estão deixando de frequentar as aulas e as oficinas.
Márcio Filla foi dispensado pela diretoria da Associação da Criança e do Adolescente de Londrina (Acalon) - entidade responsável pelo repasse de recursos para a manutenção da Escola Oficina. Ele diz que o problema se iniciou em fevereiro, quando reclamou à diretoria da Acalon sobre questões pedagógicas.
‘‘Pedimos modificações no atendimento por sentirmos a necessidade de uma filosofia adequada à população que atendemos’’, alega a psicóloga Maria das Mercês Peixoto. Ela se afastou do trabalho por não concordar com a dispensa de Márcio Filla. A psicóloga entende que as crianças e adolescentes precisam ser readequadas para que possam frequentar uma escola regular.
Por não concordar com o método de ensino, Márcio Filla diz que pediu o afastamento da direção do setor de escolaridade. ‘‘Mas, no dia 29 de abril, recebi uma carta da diretoria dizendo que eu estava afastado do meu cargo e impedido de entrar na Escola Oficina’’, diz Márcio Filla.
No dia do afastamento do coordenador, houve tumulto na escola. Crianças e adolescentes se revoltaram, protestaram contra a decisão e chegaram a até quebrar vidraças do estabelecimento. A Polícia Militar foi chamada para controlar a situação.
O ex-coordenador informa que os alunos atendidos pela escola formaram uma comissão e participaram de algumas reuniões (com a presença de representantes de outras entidades, como Secretaria da Ação Social e Promotoria da Vara da Infância e Juventude) para tentar solucionar o problema. Um coordenador interino foi nomeado pela Acalon, mas trabalhou somente um dia.
Márcio Filla conta que diretora, supervisora, bibliotecária e professora responsáveis pela escolaridade foram afastadas pela Secretaria Municipal de Educação. ‘‘Ficamos sabendo também que, na última reunião, a diretoria da Acalon resolveu sair’’, ressalta. ‘‘Só que eles tomaram essa decisão e não fizeram nada ainda. Queremos que eles saiam logo para resolver o problema’’, acrescenta.
Segundo Márcio Filla, os principais prejudicados são as crianças e adolescentes atendidos pela Escola Oficina. Maria das Mercês observa que para as crianças está difícil entender a situação, já que ninguém explicou o motivo da saída de Márcio Filla. ‘‘Os funcionários também estão sem condições de trabalho porque a escola está sem coordenador.’’
Mostrando cópias de fax, Márcio Filla informa que tem recebido apoio de várias entidades. O coordenador pedagógico da Escola Oficina, Silvio Ribeiro, também se afastou do serviço por não concordar com a dispensa de Márcio Filla.
O presidente da Acalon, Ailton Paschoal, afirma que a situação chegou a esse ponto pela dificuldade de dialogar com Márcio Filla. Ele confirma que o problema teve início em fevereiro, quando o ex-coordenador geral se queixou e afirmou que queria o fim da escolaridade. O presidente da entidade ressalta ainda que Márcio Filla teria algum motivo pessoal para ir contra a direção da escolaridade.
‘‘Até fevereiro, eu respeitava o Márcio Filla, não havia nada que desabonasse o seu perfil como profissional’’, observa Ailton Paschoal. ‘‘Mas depois, além de não nos esclarecer direito a situação, ele se mostrou radical ao extremo.’’
Ailton Paschoal afirma que a situação chegou a um ponto que a única saída era o afastamento do coordenador geral. ‘‘Juntamos todos os fatores e analisamos se a saída dele seria maléfica ou benéfica.’’
O presidente da Acalon acredita que as crianças estão sendo induzidas por Márcio Filla para protestar contra a saída dele. A carta comunicando o afastamento, segundo ele, seria entregue somente no final da tarde, justamente para evitar confusão. ‘‘Mas ele ficou sabendo e aconteceu aquele tumulto grande.’’
Ailton Paschoal diz que sofreu grande desgaste no processo. De acordo com ele, ficou decidido na semana passada que a diretoria da entidade será desfeita. Ontem à tarde, ele entregaria um documento à promotora da Vara da Infância e Juventude, Solange Novaes da Silva Vicentin, comunicando a decisão.
Ailton Paschoal explica que a atual diretoria continuará trabalhando até a nova ser constituída, o que deve demorar cerca de um mês. ‘‘Não vamos sair e simplesmente virar as costas. Queremos continuar ajudando no que for preciso’’, garante. A gestão da atual diretoria iria até maio de 1999.

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