POLÊMICA - Células-tronco: a visão da ciência e da religião
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quarta-feira, 18 de maio de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Satanizar ou endeusar a ciência são verbetes que desequilibram as discussões sobre células-tronco embrionárias. O risco da polarização é colocar frente à frente os defensores e contrários às pesquisas, olhando para o outro e as suas convicções, como sendo o seu opositor.
Nietzsche (1844-1900) afirmava que ''o outro é o meu inferno'', dissipando a possibilidade de qualquer acordo no embate de pensamentos.
Se colarmos ao argumento a história de uma menina americana cujos pais compraram o sêmen e óvulo de outro casal, fazendo com que a criança tivesse cinco pais - dois que ''encomendaram'' o bebê, dois biológicos e da barriga de aluguel - e no final da gravidez desistiram da futura filha, que ficou sob a tutela do Estado, cientistas, teólogos ou não estarão diante do drama e da fogueira da polêmica, prontos para queimar idéias contrárias.
O filósofo alemão e o caso da criança americana foram citados pelo pós-doutorado em Bioética, professor de Clínica Médica e Bioética do Hospital Universitário da UEL, e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, José Eduardo Siqueira, no debate sobre células-tronco realizado no auditório Alcides Bueno pela Unopar, dentro da programação da Semana da Saúde.
O fundador do Centro de Hemodinâmica de Londrina, o cardiologista Samuel Silva e Silva, também participou. Esperado para o debate, o doutor em Ética pela Pontifícia Universidade de Roma, o padre José Rafael Solano, não compareceu por estar em retiro espiritual, porém concedeu entrevista à Folha por telefone.
Siqueira acredita que o melhor modelo para pautar as discussões sobre pesquisas com células-tronco, principalmente embrionárias, é o que propõe o diálogo à exaustão. ''Acho que as células-tronco embrionárias que serão descartadas podem ser usadas nas pesquisas. Porém, acho que não se deve produzir embriões para isso. Não existe amparo moral'', afirmou Siqueira.
Entre os flancos do debate estão 30 mil embriões congelados no Brasil, que num prazo de três anos devem ser inutilizados, e a esperança de cura para várias doenças. O limiar dos tratamentos em seres humanos com células-tronco embrionárias é estimado pelo médico em 15 anos.
Apesar das pesquisas em ratos com as embrionárias terem obtido resultados interessantes - um trabalho da Universidade de São Paulo (USP) em que é feita uma secção na medula do roedor, tornando-o paralítico para tratá-lo com células-tronco, conseguiu obter material capaz de regenerá-lo - o médico ressaltou que é preciso critério, já que ainda não é possível saber em que as células-tronco se transformarão.
''Precisamos domesticar esse material, descobrindo um meio de cultura para isso. Nesse momento seria uma absoluta imprudência terapêutica utilizar células-tronco embrionárias''.
O padre colombiano José Rafael Solano, que há 10 anos mora no Brasil, e que foi um dos auxiliares de Teologia Moral e Sexual do cardeal Ratzinger, o Papa Bento XVI, quando este era prefeito da Congregação da Fé, disse que a ciência não pode se transformar em instrumento de manipulação, destacando que a Igreja não questiona a utilização das células-tronco adultas, apontando com o dedo de Deus a importância da entidade e identidade do embrião.
''É verdade que os médicos têm capacidade de experimentação, que eu respeito. O respeito à dignidade humana é um limite que não pode ser ultrapassado. Experimento é um prognóstico. Se temos medo do diagnóstico, quanto mais do prognóstico'', questionou o religioso, destacando que a Igreja não faz as vezes de carrasco da ciência, levantando a voz quando avança sobre o campo humano.
Siqueira traça uma linha para o diálogo com a Igreja: ''Acho imprescindível o diálogo entre as comunidades científica e religiosa, que vêem o ser humano no seu perfil biológico, psiquíquico e social. Estamos falando da mesma coisa. A ciência foi feita para o ser humano, como a religião'', apaziguou Siqueira.


