O chão das ruas é pó puro em tempo de seca. As crianças andam descalças, os ônibus da empresa que mantém o monopólio do transporte coletivo em Maringá e Sarandi passam pelos bairros e deixam mulheres e crianças cobertos de poeira.
No Jardim Triângulo, a desempregada Marcinele Ananias Rio Velho, 33 anos, não tem noção da doença da filha de dois anos, que ela carrega no colo. A menina estava com bronquite há cerca de 40 dias e ainda não havia sido medicada. ‘‘Quando eu for ao hospital pedir para dar uma olhadinha no meu ferimento do pé eu peço para ver a menina’’, argumentou a mãe. ‘‘Mas eu só vou lá quando tiver dinheiro para passagem’’.
No Jardim Bela Vista, a paisagem é a mesma. Casas semiconstruídas e gente desesperançada. A menina Patrícia Braga, 17 anos, casou no início deste ano e está no sétimo mês da gravidez. Ela nunca trabalhou. O marido, servente de pedreiro, está desempregado. Moram na casa da mãe dele, junto com mais três irmãos dela, todos menores. ‘‘Não sei como vai ser. Tá difícil. Mas a minha filhinha já tem nome: Letícia Maria’’.
Perto da casa de Patrícia, as crianças brincam na terra, sem brinquedos, fazendo desenhos com palitos de fósforo no chão ou simplesmente chupando o dedo e olhando ao redor.
Também ali perto mora Edna Magna Proença Piler, 26 anos, recém-casada e sem filhos. Seu marido é cobrador da empresa de transporte coletivo. ‘‘Tudo aqui é fossa. Ainda tenho que arrumar dinheiro para tampá-la e evitar o mau cheiro. Ainda não temos luz, pois o poste não chegou. Pagamos tudo e não temos quase nada. Cascalharam a rua, mas tenho certeza de que se colocarem asfalto nós é que vamos pagar. Violência? Nunca vi, mas a gente ouve falar muito’’, diz Edna.
Não muito longe, ao lado de uma igreja, atrás de uma casinha de apenas um cômodo a menina Franciele, 7 anos, lava a louça no tanque. Se ela pudesse passaria o dia inteiro na escola, mas só vai para as aulas meio período.
Voltando do trabalho, às 17 horas, com o macacão sujo de óleo, o mecânico Mário, 18 anos, resume a situação do local: ‘‘O que é que vou fazer agora, quando chegar em casa? Vou tomar banho e dormir para ver se esqueço a fome’’. (M.V.).

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