Podemos ser destruídos por micro-organismos
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domingo, 24 de outubro de 2010
Luciano Augusto<BR>Reportagem Local 
Descoberta em 1928 pelo pesquisador escocês Alexander Fleming, a penicilina foi o primeiro antibiótico a ser usado em larga escala, a partir de 1940, para tratar as infecções de soldados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). De lá para cá, o uso indiscriminado dos antimicrobianos acabou gerando um problema que assombra a comunidade médica e a população em geral: muitas bactérias se tornaram resistentes aos antibióticos mais potentes disponíveis. Nos últimos dias, o Brasil foi sacudido pela notícia de quase duas dezenas de mortes em hospitais de Brasília (DF), provocadas pela Klebsiella pneumoniae Carbapenemase (KPC), uma superbactéria descendente da Klebsiella que habita o intestino humano.
O Paraná entrou na rota da KPC em fevereiro do ano passado, quando o Hospital Universitário (HU) de Londrina recebeu um adolescente vítima de atropelamento em Goiânia (GO) que estava com o sangue infectado pela superbactéria. Outros pacientes acabaram colonizados (bactéria presente na pele). Desde então, o hospital restringiu o atendimento duas vezes - em abril de 2009 e julho deste ano - e não se livrou mais do problema. Em pouco mais de um ano e meio, mais de 230 casos foram confirmados.
A KPC é a mais nova bactéria multirresistente identificada no Brasil. Possivelmente, nós nunca mais vamos ficar sem essa bactéria e outros hospitais também. Por isso, é importante que todos os estabelecimentos de saúde a investiguem, observa a superintendente do HU, a pediatra Margarida de Fátima Carvalho. Ela lembra que, assim como outros organismos multirresistentes, a superbactéria encontrou nos hospitais condições ideais para se alastrar, atacando pacientes graves como aqueles com câncer, pós-cirúrgicos e bebês prematuros. Como é transmitida por contato, basta o descuido de um funcionário ou de um visitante para contaminar outro paciente.
Coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do Hospital Evangélico (HE) e membro da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do HU, em Londrina, a infectologista Joseani Pascual Garcia explica que as bactérias habitam o corpo humano e até auxiliam os humanos em muitas funções. A Klebsiella, por exemplo, ajuda nas tarefas do trato intestinal.
Mas a automedicação, o consumo indiscriminado e a prescrição errada de antibióticos acabaram selecionando as bactérias que, por mutações genéticas, não eram exterminadas. Ao longo de décadas, estas superbactérias se fortaleceram e passaram a atacar outras bactérias e a fazer cópias de si mesmas. Não é exagero dizer que podemos ser destruídos por estes micro-organismos. Não temos antibióticos para combatê-los e não existe perspectiva para que surjam novos medicamentos nos próximos anos, adverte.
Embora possível de ser evitado, a infectologista diz que o risco de infecção hospitalar sempre existe para quem precisa ficar internado. Para um paciente queimado, por exemplo, o risco é maior. Para crianças prematuras e idosos também é maior do que para um adulto jovem, complementa.


