Poços artesianos estão sujeitos a contaminação
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quinta-feira, 06 de janeiro de 2005
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Nitritos, nitratos, amônia (substâncias resultantes da decomposição da matéria orgânica) e até coliformes fecais. Tudo isto pode estar presente na água de um poço artesiano, quando não é feito um prévio e cuidadoso estudo hidrogeológico antes da perfuração. Como Londrina não possui escritório local da Superintendência de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (Suderhsa) - o município está sob responsabilidade do escritório regional de Arapongas (37 quilômetros a oeste de Londrina) -, a fiscalização é precária e mais de 400 poços podem estar funcionando clandestinamente, com risco de oferecer água contaminada aos seus usuários.
Pesquisas mostram que no sistema digestivo o nitrato é transformado em nitrosaminas, que são substâncias cancerígenas. Se consumidos frequentemente, podem também causar danos neurológicos permanentes.
A possibilidade de economizar na conta de água é o principal atrativo dos poços artesianos. Apesar do número de perfurações aumentar a cada ano, Londrina é o único município entre os maiores do Estado que ainda não foi submetido ao processo de regularização dos poços, pelo qual já passaram Cascavel, Foz do Iguaçu, Campo Mourão e parte de Curitiba.
''Os escritórios regionais têm pouca gente para trabalhar, e tivemos mais de duas mil outorgas só este ano'', admite Norberto Ramon, chefe do Departamento de Outorga e Fiscalização de Recursos Hídricos da Suderhsa. Segundo Ramon, a idéia é iniciar nos próximos meses a fiscalização e notificação de todos os poços existentes no município, com o objetivo de regularizar a situação. ''Vamos fazer este trabalho, nem que seja um processo mais lento'', afirma.
Em entrevista à Folha em setembro de 2000 Ramon também reconheceu que a debilidade da fiscalização dos poços artesianos em Londrina é falha, pela falta de um escritório da Suderhsa na cidade. ''Mas estamos planejando um trabalho de notificação para breve. Todos os usuários serão visitados para a regularização dos poços'', disse na época.
O engenheiro civil Adilson Albuquerque Cândia, fiscal de obras do escritório regional do órgão em Arapongas, informa que a fiscalização dos poços outorgados só é feita de cinco em cinco anos, à época da renovação da outorga. ''O risco de contaminação existe, o ideal seria que a análise bacteriológica fosse feita com maior periodicidade, de seis em seis meses ou uma vez por ano, principalmente se a água do poço for utilizada para consumo humano'', analisa Cândia. Na opinião do engenheiro, a questão do uso da água subterrânea exige fiscalização mais rigorosa. Por isso, ele defende que a legislação se ajuste à nova realidade.
De acordo com dados da Suderhsa, existem 204 poços com licença de outorga ou em processo de liberação de licença em Londrina. Mas, segundo o professor André Celligoi, do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o número de poços clandestinos deve ultrapassar em mais de duas vezes este número. ''Sou a favor da exploração da água subterrânea, mas ela tem que ser usada racionalmente. O Estado não dispõe de mecanismos suficientes para a gestão da água, como por exemplo um programa efetivo de controle das perfurações, com critérios bem estabelecidos e cobrados'', diz o professor, que é doutor em Hidrogeologia.
Antes de perfurar um poço é preciso pedir anuência prévia à Suderhsa e, junto à solicitação, apresentar um estudo hidrogeológico que aponte o local de exploração, o projeto construtivo e as condições de exploração. Este estudo deve ter um responsável técnico, de preferência um geólogo. Atualmente o custo do estudo hidrogeológico custa de R$ 2 mil a R$ 3 mil. Só depois de perfurado é que o poço recebe a outorga.
Quando a perfuração do poço não cumpre todo este caminho, a qualidade da água não é garantida. Celligoi explica que um dos riscos é o revestimento inadequado do poço, que isola a água superficial da água subterrânea. ''A água pode ser contaminada, por exemplo, por fossas sépticas ou pontos de poluição, por isso a proteção sanitária tem que ser perfeita'', detalha, ressaltando que um poço pode tanto ser fonte de água quanto veículo de contaminação do aquífero.


