Pobreza ronda a população de Sarandi
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de novembro de 1998
Márccio W. Varella 
Uma cidade do Noroeste do Paraná com pouco mais de 60 mil habitantes, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ganha frequentemente espaço no noticiário nacional por causa da característica dos crimes cometidos na localidade. Em Sarandi (7 km de Maringá), os registros policiais enumeram casos pavorosos de assassinatos.
Uma das mais recentes ocorrências foi registrada há cerca de uma semana. O desempregado Eduardo César Ribeiro, 20 anos, matou o pai, Teófilo Ribeiro, 46 anos, com uma facada no tórax. Preso em flagrante, Eduardo contou na Delegacia de Sarandi que havia discutido com o pai por causa de um CD. Durante a discussão, o desempregado pegou uma faca que estava sobre a mesa da cozinha e desferiu um golpe fatal contra o pai. Eduardo confessou ser dependente de drogas e de ter ingerido bebida alcoólica antes da discussão.
Edna Magna
Proença
Piler,
26 anos
(ao lado):
Tudo aqui
é fossa;
acima,
Franciele,
7 anos,
que lava
a louça
no tanque
de roupas
e diz que
gostaria
de estudar
o dia inteiroA violência em Sarandi começa nas vilas pobres que rodeiam o perímetro urbano, onde não existem esgoto e galerias de águas pluviais. E não pára na superlotada cadeia chefiada desde maio de 1994 pelo delegado José Aparecido Jacovós. Pelo contrário, se estende até Maringá. É que aqui não tem o que roubar, pois todos são pobres. Por isso, o pessoal vai roubar, comprar drogas e se divertir em Maringá, diz o comerciante José de Queiroz Arruda.
Segundo o delegado Jacovós, em 1994 a polícia abriu 25 inquéritos relativos a homicídios dolosos e no ano seguinte o número caiu para oito. Em 1996, foram nove os casos e em 97, 10. Até setembro deste ano, 5 casos foram registrados. Em 1994, a média de furtos mensais era de 80; em 98, ficou em 25. São raros os registros de furtos de veículos, segundo Jacovós. Esses números mostram que o índice de criminalidade aqui não é alto. Temos tudo sob controle. Quem quer roubar, vai para Maringá, pois lá tem o que eles querem, afirma o delegado.
A violência que nasce em Sarandi chega a Maringá na forma de homens, mulheres, meninos e adolescentes entre sete e 17 anos de idade. Há quadrilhas de ladrões que se escondem nas vilas de Sarandi. Há duas semanas, a Polícia Militar prendeu no Jardim Triângulo o fugitivo da Colônia Penal Agrícola de Piraquara, Marcelo Batista, de 22 anos, autor de assalto à mão armada no bairro Aeroporto, de Maringá, há um mês.
Em setembro passado, o serviço SOS Criança, da Prefeitura de Maringá, recolheu das ruas 93 crianças e adolescentes, das quais 34 eram de Sarandi. Essas crianças, depois de orientadas, são devolvidas às famílias ou entregues ao Abrigo Aníbal Khouri, de Maringá.
Em janeiro deste ano, Maringá tirou das ruas 109 crianças e adolescentes entre sete e 17 anos, das quais 45 eram de Sarandi. Em julho, foram 53, das quais 22 de Sarandi. Em agosto 79, sendo 16 de Sarandi. A maioria usa a caixa de engraxate como disfarce, pois na verdade eles vêm aqui para praticar pequenos furtos, cheirar cola e jogar em vídeolocadoras. O que ocorre é que Maringá tem uma estrutura social maior, o que interessa às crianças, afirma Yara Aparecida Martini, coordenadora do SOS. Ela diz ainda que algumas mães pobres de Sarandi vão a Maringá pedir esmolas com os filhos doentes no colo.
O número de crianças retiradas das ruas de Sarandi pelo Conselho Tutelar é um pouco maior, mas o trabalho é o mesmo. Há cerca de duas semanas, três alunos de um colégio municipal de Sarandi estavam aguardando para fazer exames de sangue no Conselho Tutelar. O conselheiro Pedro Ribeiro explicou que elas, todas de 11 anos, procuraram a direção da escola para dedurar um colega de 13 anos, que estaria exigindo diariamente dinheiro dos meninos em troca de tiner e cola. Ele me ameaçava de morte se não fizesse isto. Ele é conhecido como Nelsinho e já vimos ele transando com outros colegas. Ele obriga os outros a transarem com ele, disse D., entre pálido e envergonhado.
PERFIL DO MUNICÍPIO
População: 60.240 habitantes (IBGE)
Aniversário: 14 de outubro
Padroeira: Nossa Senhora das Graças
População Economicamente Ativa (PEA): 32 mil
Prefeito: Júlio Bifon (PSDB)
Propriedades urbanas: 22.071
Ligações elétricas: 15.065
Telefones instalados: 1.359
CRIMES
- Em 1996, o garçom Jamir Valentim, 22 anos, sequestrou e matou de forma selvagem o garoto Cleudisson Bernardi, 14 anos. Valentim foi condenado em maio deste ano a mais de 30 anos de reclusão.
- Em novembro de 97, a polícia prendeu os quatro suspeitos de terem assassinado o vereador Luiz Zanchin, 44 anos, com três tiros de revólver calibre 38, em frente à casa dele. Estão presos e aguardando julgamento Leônidas Barbosa de Andrade, 35 anos, ensacador de usina de açúcar; Marcos Alves, 22 anos, vendedor de mel que confessou ter sido o autor dos disparos que mataram Zanchin, e os supostos mandantes do crime, José Cristino Malta, 35 anos, dono de farmácia e suplente do vereador Zanchin, e Aparecido Barbosa de Andrade, 39 anos, irmão de Leônidas e ex-presidente do PPS municipal.
- No mês passado, o delegado Jacovós abriu inquérito contra duas mulheres acusadas de provocarem abortos; os crimes de estupro em família também são comuns em Sarandi.
- Em março de 96, o estudante Marco Aurélio Mendes foi assassinado em frente de uma escola de Sarandi. O suspeito do crime, Joneílson Flório de Oliveira, preso em Curitiba no início deste mês, foi colocado em liberdade pela Justiça de Sarandi.


