''Pobre não sonha, só pensa'', diz morador
''Eu nunca tive sonho'', diz I.T., 44 anos, catadora de papel e moradora da Vila Marízia (Área Central de Londrina) há 30 anos, quando questionada pela reportagem da Folha sobre que vida gostaria de ter se pudesse escolher. O marido, V.R., 47 anos, emenda: ''Pobre não sonha, só pensa. Cada dia vai pensando no hoje, e quando vê, já morreu''.
A seu modo simples, o ex-bóia-fria traduz com perfeição a história de miséria que permeia a Marízia e que levou a maioria de seus moradores a perder qualquer perspectiva de melhorar de vida. O bairro tem nome de vila, mas é conhecido como favela a mais antiga de Londrina.
Formada nos anos 30, a vila foi ganhando melhorias físicas, mas nunca deixou de carregar a marca da pobreza. Hoje, é dividida em três partes, segundo a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld): a Marízia 1, regularizada e mais urbanizada, com cerca de 38 famílias; a Marízia 2, formada nas últimas décadas e ainda com status de assentamento, abrigando 68 famílias; e o fundo de vale da Marízia, onde de 60 a 70 famílias brigam com a prefeitura para permanecer.
No total, são quase 1 mil habitantes, sendo que a maioria dos economicamente ativos são trabalhadores informais e de baixíssima renda. Em meio a essa população, como sempre ocorre em meio à miséria, houve os que vislumbraram que o futuro estava no crime. Muitos foram mortos no caminho; outros tantos foram presos, como os jovens pegos no arrastão de ontem. Sobre isso, o delegado-chefe da Polícia Civil em Londrina, Jurandir Gonçalves André, afirma: ''É a vontade do autor do crime que o leva a cometê-lo, antes de mais nada. Pobreza não é motivo determinante''.
Para o delegado Antônio do Carmo, que atua na Polícia Civil há quase 30 anos, a Vila Marízia foi sendo dominada pelos criminosos porque mesmo os moradores honestos se omitiram, temendo perder a própria vida. ''É compreensível que eles tenham medo, mas os 'cidadãos de bem' têm sua parcela de culpa. Eles sabem quem guarda arma em casa, sabem a que horas chegam as drogas para os traficantes, mas não falam nada. Passam perto de vários telefones públicos a caminho do trabalho e não têm coragem de fazer uma denúncia anônima''.
A reportagem tentou contato com a secretária municipal de Assistência Social, Maria Luiza Rizotti, para comentar a situação da comunidade na Vila Marízia, mas não conseguiu falar com ela até o fechamento da edição. (V.N.)





