Pneumonia é risco para 300 crianças
Hábito de andar sem roupas e o uso de fogueiras dentro de casa agravam problemas de saúde na reserva do Apucaraninha
Célia Baroni
Mario CesarPrecariedadeIsabela Campolim, 2 anos, é examinada ontem de manhã: falta de energia elétrica atrasou inalações Três crianças da reserva indígena do Apucaraninha, em Tamarana (65 quilômetros ao sul de Londrina), estão internadas no Hospital São Francisco, naquela cidade, com pneumonia, diarréia e vômito. Segundo levantamento do posto de saúde da reserva, pelo menos outras 300 crianças até cinco anos apresentam um quadro de gripe forte, correndo o risco de evoluir para pneumonia. Na semana passada, duas crianças da reserva morreram, vítimas da doença.
Na terça-feira, 150 crianças precisaram de atendimento no posto de saúde da reserva indígena. Ontem de manhã, várias crianças esperavam que a energia elétrica fosse restabelecida para poder ser submetidas a inalação. Driele Pripra, de 1 ano de idade, teve que esperar uma hora para poder fazer inalação. Ela foi ao posto de saúde acompanhada pelo irmão Joel Pripra, de 10 anos.
Mario CesarCriança nua: hábito agrava problemas de saúdeIvonete Campolim teve ontem que internar outra vez a filha Isabela, 2 anos. ‘‘Ela já foi internada mais de cinco vezes por pneumonia. Não tem resistência’’, contou Ivonete. Viviane Ermenegildo, de 1 ano, está internada desde segunda-feira, com pneumonia. O primo dela, Vagner Ermenegildo, 3 anos, foi internado ontem com diarréia e vômito.
Uma equipe da Fundação Nacional do Índio (Funai) - formada por um técnico agrícola, uma enfermeira e uma assistente social - esteve ontem na reserva do Apucaraninha visitando as famílias com crianças doentes, cadastradas pelo posto de saúde local. ‘‘A situação é preocupante, por isso damos prioridade a esta reserva, fazendo visitas semanais’’, afirma a assistente social da Funai, Evelise Viveiros Machado. O núcleo regional da Funai, sediado em Londrina, responde por outras quatro reservas da região.
Mario CesarEvelise e Nilsilene, da Funai: dificuldadesOs índios reclamam da falta de estrutura da reserva. O cacique da reserva, Juscelino Vergílio, acredita que grande parte dos problemas seria resolvida com a presença de um médico três vezes por semana e uma ambulância disponível para os índios. ‘‘Na maioria das vezes não temos nem como levar nossos doentes para atendimento fora da reserva’’, diz Vergílio. Atualmente, um médico da Prefeitura de Londrina atende no posto duas vezes por semana - às quintas-feiras e aos sábados.
A comunidade indígena do Apucaraninha reivindica também mais equipamentos para o posto de saúde. Os índios caingangues gostariam que o local pudesse funcionar como um mini-hospital.
O cacique argumenta que a reserva fica a 30 quilômetros de Tamarana, onde fica o Hospital São Francisco. ‘‘Em casos de emergência, o índio chega morto ao hospital’’, argumenta Juscelino Vergílio. ‘‘Precisamos de um atendimento mais completo aqui mesmo’’, ele sugere. Moram na reserva cerca de 200 famílias. Entre elas, 20 moram a uma distância de até 18 quilômetros do núcleo da reserva.
A Funai de Londrina informou que está buscando recursos para a compra de um carro com tração nas quatro rodas para servir à reserva. Mas, para o órgão, o problema é muito mais difícil de ser resolvido.
Segundo a assistente social Evelise Machado, os trabalhos esbarram na questão cultural do povo indígena, que não aceita interferências no seu modo de vida e tem uma visão diferente da questão da saúde. ‘‘Até hoje muitas famílias não abrem a porta para a gente dar atendimento e orientação, mesmo quando há pessoas doentes’’, conta a agente de saúde Nilsilene Magalhães.
Andar sem roupas ou com roupas muito leves é comum entre as crianças. O hábito de manter fogueiras acesas dentro de casa aumenta ainda mais o risco de doenças respiratórias. ‘‘As casas ficam aquecidas por dentro e as crianças ficam entrando e saindo, expondo o organismo a constantes choques térmicos’’, diz Nilsilene.
A posição geográfica da reserva, segundo elas, também não ajuda. Os cerca de 5 mil hectares da reserva do Apucaraninha estão em uma baixada cercada por três rios: o Apucaraninha, o Tibagi e o Apucarana Grande, fazendo com que a região seja extremamente fria e úmida.
A religiosidade também atrapalha o atendimento à saúde. Entre as famílias da reserva predominam o catolicismo e o protestantismo da Igreja Assembléia de Deus e da Igreja Cristianismo Decidido.
Antes de buscar o atendimento médico, muitas famílias preferem orar pela cura, chamar o ‘‘curador ’’ - índio que indica tratamentos com ervas e chás - ou benzer as crianças. A busca tardia pelo posto, segundo a Funai, é uma das principais causas do agravamento das doenças.

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