Sarandi - Quatro homens presos esta semana, sob acusação de tráfico de drogas, denunciaram ontem a prática de tortura e execução sumária por parte de policiais do 4º Batalhão da Polícia Militar de Maringá. Os irmãos Oziel Trevisan, 18 anos, e Jeziel Trevisan, 20, contaram em depoimento para a Polícia Civil e para o Ministério Público de Sarandi, todos os detalhes da operação da PM que na quarta-feira invadiu uma casa de venda de crack. Em entrevista ontem, os dois relataram a forma como o irmão Mizael Trevisan, 22, foi executado pela polícia e a sessão de tortura de mais de cinco horas sofrida por eles no batalhão.
O proprietário da casa, Nilson Ribeiro Braga, 49, e o filho dele, Marcelo Alexandre Braga, 22, também relataram a tortura e ameaças de morte. Na operação, Nilson levou um tiro no braço e contou que no Hospital Metropolitano de Sarandi, onde ficou internado, foi ameaçado diversas vezes por policiais que faziam a guarda do quarto.
Outros dois homens, um pedreiro e um metalúrgico, que estavam na casa de Nilson no momento da operação da PM, também acabaram sendo presos e torturados no batalhão. Os dois foram liberados porque a polícia percebeu que eram trabalhadores e que só estavam no local passando um orçamento para execução de uma garagem para o proprietário da casa. Segundo o delegado de Sarandi, José Maurício de Lima Sobrinho, os dois homens foram encaminhados para o Instituto Médico Legal (IML) porque mal conseguiam caminhar.
No peito de Jeziel, é evidente a marca de um solado de coturno. Jeziel, Oziel e Marcelo, têm diversas marcas pelo corpo. Eles contaram que cerca de 30 policiais, com uniformes da Rone, da P2, e fardados, chutavam, davam socos e apertavam as algemas nos pulsos.
O delegado Lima disse ontem que pediu afastamento do caso e a nomeação de um delegado especial para o trâmite do inquérito. O delegado afirmou que durante a tortura dos presos, a PM os obrigou a ''denunciar'' policiais civis de Sarandi que estariam cobrando pedágio para o funcionamento do ponto de venda de crack. ''Ainda assim abrimos inquérito para apurar qualquer participação de policial civil no caso, mas um depoimento na base da tortura não tem nenhum valor'', disse Lima.
Os presos confirmaram ontem que durante a sessão de tortura, os PMs diziam nomes de policiais civis para que eles afirmassem em depoimento que pagavam com dinheiro do tráfico. Os presos contaram que depois da tortura, uma promotora acompanhou o depoimento no batalhão. ''Pena que ela (a promotora) não percebia que estávamos com muito medo. Os policiais ficavam nos olhando e depois de sairmos da sala ainda continuaram nos batendo'', disse Jeziel.
O advogado dos presos, Adelino Garbuggio, disse que a Polícia Militar cometeu pelo menos quatro crimes, como o de sequestro, carcére privado, homicídio e tortura. O comandante do 4º BPM, Erbt Afonso Pinto, disse ontem que considerou as denúncias ''gravíssimas'' e que vai determinar a abertura de inquérito.

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