A Polícia Militar (PM) despejou no início da manhã de ontem aproximadamente 200 famílias que 24 horas antes haviam ocupado uma área do conjunto de propriedades conhecido como Cajati, no Distrito de Rio do Salto, a 40 quilômetros do centro de Cascavel. Oito sem-terra foram presos e dois homens e uma menina de 8 anos foram feridos levemente por balas de borracha. Segundo a PM, os disparos foram feitos porque os adultos resistiram à ação dos policiais, e teria sido casual o ferimento na menina. O MST classificou a ação como violenta.
O MST geralmente consegue monitorar com algumas horas de antecedência os deslocamentos de tropas da PM para ações de despejo. Havia especulações de que outros dois acampamentos liderados pelo movimento, existentes no mesmo conjunto de propriedades e de onde haviam saído as famílias, poderiam enviar sem-terra para ajudar resistir. Mas a ação foi surpresa, autorizada por volta de 22 horas de anteontem pelo secretário de Segurança, José Tavares. Sobre o conjunto de propriedades (ocupadas há 1 ano e meio) já havia ordem judicial de despejo, expedida ainda no ano passado.
A maior parte dos sem-terra dormia nos barracos recém-montados, quando chegaram cerca de 200 policiais. Segundo o subcomandante do 6º BPM de Cascavel, em ‘‘quatro minutos o acampamento estava inteiramente dominado e a situação sob controle’’. Os sem-terra e seus pertences foram colocados em caminhões cedidos pelos proprietários (herdeiros da família Festugatto) e levados de volta para o acampamento de origem. A imprensa, como sempre ocorre neste tipo de ação, foi mantida a longa distância pela PM.
Eliane Duarte, 8 anos, foi atingida de raspão nas costas por uma bala de borracha. A menina diz que queria ‘‘acudir o pai’’, Orides Padilha, porque ele estava sendo dominado pelos policiais. A menina e os outros adultos atingidos por balas de borracha foram levados a um hospital para curativos, e liberados em seguida. Os oito presos foram levados para o 1º Distrito Policial para interrogatório, sob a acusação de esbulho possessório (invasão de propriedade), formação de quadrilha e resistência à ordem.
O MST tentará a libertação dos presos para que respondam inquérito em liberdade. Um deles é Ivo Becker, 37 anos, um dos coordenadores do acampamento que nega ter havido resistência e que em seu barraco houvesse arma. Ele disse que estava dormindo quando os policiais chegaram, e ao correr para fora do barraco, foi atingido no joelho por uma bala. A mulher, Marli, disse que ‘‘a única arma era o terço’’ (rosário). ‘‘Só há violência contra os pobres, nesse mundo’’, lamentou Marli. A filha, Marceline, 8 anos, pediu a policiais que não machucassem seu pai. ‘‘É o único que tenho’’, disse a menina.
O coronel Amauri de Lima, comandante do 6º BPM, relatou que foram encontrados no acampamento dois revólveres, duas pistolas e cinco coquetéis molotov – garrafas com combustível. Também foi encontrado um rádio que os sem-terra teriam retirado de uma camionete da propriedade, quando da ocupação. Um dos coordenadores regionais do MST, Valentin dos Santos, que classificou a ação da PM como violenta, disse desconhecer a existência das armas e do rádio. Sobre os coquetéis molotov, afirmou serem ‘‘litros de gasolina para uma camionete velha dos acampados’’.
A área denominada Cajati compunha originalmente uma propriedade de mais de 30 mil hectares, hoje dividida em várias propriedades. No ano passado, ela foi ocupada por aproximadamente mil famílias. Alegando ‘‘falta de espaço’’, parte dos acampados invadiu a área anteontem.

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