O auxiliar de cinegrafista Ademir dos Santos Lemes, 23 anos, foi baleado na coxa direita, na noite de terça-feira, pelo policial militar (PM) Nilton Cesar de Freitas, no Conjunto Novo Bandeirantes, perto de onde reside com os pais, em Cambé (13 km a oeste de Londrina). Depois de medicado na Santa Casa de Cambé, ele foi preso em flagrante pela Polícia Civil sob acusações de resistir à voz de prisão e de portar substâncias entorpecentes. Na tarde de ontem, ele foi solto após pagamento da fiança arbitrada em R$ 50,00 pelo delegado Nasser Salmen.
Há duas versões para o incidente. A apresentada por Lemes é de que os soldados Nilton de Freitas e outro identificado apenas como Edivaldo, perseguiram Lemes, que seguia pelo Novo Bandeirantes em sua motocicleta sem placa, em alta velocidade e levando na garupa duas menores; os três sem capacetes.
Os policiais atiraram e furaram o pneu traseiro da moto. Segundo Ademir Lemes, eles chegaram gritando que iriam matá-lo. ‘‘Um deles algemou minhas mãos para trás e o outro atirou na minha perna à queima-roupa. Depois me jogaram dentro do camburão e me levaram sangrando para o hospital’’, contou o Lemes. De acordo com a Ficha de Atendimento a Ocorrência (FAO) encaminhado pelos PMs ao delegado Salmen, a versão é outra: o motoqueiro teria resistido à prisão e, durante a luta corporal dos PMs para tentar algemá-lo, o tiro do revólver calibre 38 teria sido disparado acidentalmente.
A bala atravessou a coxa direita, passou pela bolsa escrotal e ficou alojada na coxa esquerda de Ademir Lemes. Depois de assistido por médicos da Santa Casa - onde passou a noite sob vigilância de PMs -, ele foi levado à Delegacia de Cambé e interrogado por Nasser Salmen. Juntamente com a FAO, os PMs entregaram ao delegado dois papelotes de pasta base de cocaína que dizem ter encontrado na roupa de Lemes.
Foi aberto inquérito para apurar as circunstâncias em que ocorreu o disparo contra Lemes e a sua prisão. As menores que acompanhavam Lemes confirmaram, ao delegado, a versão de que ele estava desarmado, não portava nenhum tipo de droga, e fora baleado mesmo depois de não resistir à voz de prisão e já estar algemado. ‘‘Vamos apurar a verdade desta história toda em poucos dias’’, afirmou Salmen. O acusado responderá ao inquérito em liberdade.
O delegado ainda que Lemes tem antecedentes criminais por porte de drogas. ‘‘Estive preso no 4º Distrito durante três meses, mas nada ficou provado contra mim. Quem estava com as drogas no carro eram outros amigos meus. Agora, estou sendo perseguido por motivos racistas, porque sou negro mas sempre estou acompanhado de moças brancas’’, ressalta Lemes.
Na tarde de ontem os pais dele - Benedito e Eva Lemes - estavam angustiados na Delegacia de Cambé, enquanto parentes juntavam os R$ 50,00 para pagar a fiança. ‘‘Meu filho perdeu muito sangue. Está amarelo, com a bala na perna, e preso sem motivo; vítima de uma armação dos soldados da PM’’, acusa Benedito dos Santos Lemes.
O comando do 5º BPM abriu inquérito para apurar os fatos e, dentro de 40 dias, concluir relatório indicando se houve ou não imperícia, negligência ou imprudência do soldado Nilton de Freitas. Se confirmado, será aberta auditoria que pode resultar em pena de dois anos de prisão e expulsão da corporação.

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