Numa megaoperação envolvendo aproximadamente 400 homens, a Polícia Militar cumpriu ontem de manhã as ordens de reintegração de posse das fazendas Santa Maria, em Jaguapitã (46 km ao norte de Londrina), e Jacutinga, em Porecatu (85 ao norte de Londrina). Cerca de 100 famílias foram retiradas de cada propriedade. Por volta das 15 horas, um comboio formado por caminhões com mudanças e ônibus com sem-terra, escoltados por viaturas, começaram a deixar a fazenda Jacutinga e se dirigir para o assentamento da Fazenda Ingá, em Bela Vista do Paraíso.
Há 15 dias o comando da PM preparava a desocupação das duas áreas. Foram recrutados dezenas de soldados dos Grupos de Operações Especiais (GOE) de praticamente todos os 18 batalhões do Paraná. A informação da PM e também de simpatizantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), como o professor Miro Vidal, de Jaguapitã, é que não houve resistência.
Na entrada das duas propriedades, ambas localizadas às margens da PR-170, trecho Rolândia-Porecatu, a PM espalhou soldados para impedir qualquer acesso ao local onde estavam as famílias de sem-terra. Além da imprensa e de membros da Pastoral do Migrante, até o arcebispo de Londrina, dom Albano Cavalin foi barrado na entrada da fazenda Jacutinga. Ele precisou telefonar para o Gabinete Civil e para o Secretário de Segurança, José Tavares, e mesmo assim teve que esperar por quase três horas.
Com Tavares ao celular, o arcebispo tentou fazer com que um segundo-tenente do GOE de Maringá atendesse à ligação mas ele se recusou. O comandante interino do 15º BPM de Rolândia, José Cesário de Paula, foi chamado ao telefone por um coronel de Curitiba ordenando o acesso imediato a D. Albano. Mas a permissão foi condicionada. Ele teve que ir sozinho numa viatura, e ficou pouco mais de 20 minutos com as famílias.
Na Fazenda Santa Maria, um incêndio que começou por volta das 2 horas da madrugada de ontem destruiu grande parte da máquina de beneficiamento de café. Os sem-terra disseram que não sabiam como o fogo tinha começado. Miro Vidal, que estava na sede da fazenda, disse que acionou o Corpo de Bombeiros de Rolândia. Eles chegaram até o Posto da Polícia Rodoviária, mas foram, segundo Vidal, impedidos de entrar antes da chegada da tropa que iria fazer a desocupação.
José Eduardo Meireles, um dos sócios da fazenda, tem outra versão. Ele disse que o incêndio foi criminoso. ‘‘Eles sabiam que haveria a desocupação e colocaram fogo no prédio como vingança’’, acusou. Meireles alega que entrará na Justiça contra o Estado para ser indenizado de todos os prejuízos. Ele lembrou que a Justiça concedeu a reintegração de posse em fevereiro de 98, e que só ontem a ordem foi cumprida.
O ex-administrador da fazenda Jacutinga, Benedito Alves dos Santos, também disse que a propriedade foi depredada desde que foi invadida, em março de 97. Lideranças dos sem-terra na região estavam revoltadas com as desocupações simultâneas, na madrugada mais fria do ano.

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