A Polícia Militar cumpriu nesta sexta-feira (3) o mandado de reintegração de posse de um terreno particular invadido no Residencial Cancun 3 (zona norte de Londrina). A operação começou às 6h30 e 200 policiais foram mobilizados. A maioria dos invasores mudou-se para o local em novembro do ano passado. Na área havia 50 barracos, mas segundo a PM apenas cerca de 30 famílias moravam no local, o restante das moradias estava desocupado.

A ordem de reintegração de posse foi expedida pela 8ª Vara Cível de Londrina e o advogado que representa os invasores entrou com um agravo de instrumento para tentar manter os moradores no local, mas o pedido ainda não foi analisado pelo Tribunal de Justiça do Paraná.

Comandante da 4ª Companhia Independente da PM e comandante da operação de reintegração de posse, o major Marcos José Facio relatou que quando os policiais chegaram ao local alguns moradores se opuseram e afirmaram que não iriam se retirar, mas com a chegada do advogado que os representa, por volta das 8h30, eles concordaram em sair e começaram a retirar seus pertences.

Ainda segundo o major, o proprietário do terreno disponibilizou caminhões, 20 carregadores e pedreiros para ajudar os moradores na desmontagem das moradias e transportar móveis e utensílios domésticos. "Mas muitos barracos não têm moradores. Se continuarem em situação de abandono, o maquinário vai passar por cima e derrubar", disse o comandante.

A Secretaria Municipal de Assistência Social foi informada sobre o cumprimento da medida e, segundo o major, os moradores que não tivessem um local para se abrigarem seriam encaminhados ao Centro Regional de Assistência Social (Cras). A Copel também foi chamada para fazer o desligamento das instalações elétricas clandestinas. Outros órgãos, como Comissão de Direitos Humanos e Ministério Público também teriam sido avisados, disse o comandante, mas não foram até o local para apoiar os invasores.


"Estamos orientando eles (os moradores) a obedecer a determinação judicial para que haja uma reintegração harmônica e pacífica. Nosso objetivo não é tumultuar, afrontar, mas muitos dos que estão aqui não têm condições de alugar uma casa porque não têm nome e renda suficiente para tanto. É muita burocracia para alugar um imóvel hoje. Um ou outro cometeu alguns deslizes, mas a maioria são pessoas honestas, trabalhadoras e por se manterem em subempregos, ficavam aqui no intento de alcançar os direitos constitucionais de moradia", declarou o advogado Gildásio Teixeira Chaves, que representa os invasores.

Moradores conversaram com a reportagem, mas poucos deles quiseram se identificar. De acordo com uma moradora, que chegou ao local em novembro DE 2016, a primeira casa foi construída no local há mais de um ano. "Eu morava de aluguel no Novo Amparo (zona norte), mas como lá o problema da criminalidade está muito pesado, está muito difícil, é impossível criar filho lá. Depois que balearam o carro do meu marido na porta da nossa casa durante um tiroteio decidimos deixar o bairro", contou ela, que morava com o marido e três filhos na área de invasão.

Com o cumprimento do mandado de reintegração de posse, ela retirou os pertences de dentro de casa e disse que iria deixá-los na rua até a Justiça analisar o agravo de instrumento. Ela contou também que os moradores conseguiram a doação de 10 mil tijolos e eles tentam conseguir um transporte para levar o material para a área particular. "Nós vamos insistir. Vamos esperar a decisão do juiz e se ele for favorável a nós, entramos de novo", afirmou. "Aqui têm pessoas doentes, que não têm emprego, têm crianças cadeirantes, deficientes físicos, pessoas com bolsa de colostomia, aqui só tem pessoas que precisam. O cara (proprietário do terreno) poderia ter negociado com a gente, a gente pagava. A maioria das pessoas aqui tem cadastro na Cohab. Tem gente que tem cadastro há 23 anos", disse. "Aqui a gente não quer nada de graça. A gente quer um lugar para morar", reforçou outra moradora.


O encarregado de manutenção Nadir Calado chegou em novembro à área de invasão acompanhado da esposa grávida e de dois filhos. Ele saiu do Conjunto Semíramis (zona norte) porque não tinha mais condições de pagar os R$ 600 de aluguel. "Tinha uns conhecidos aqui, vim para visitá-los e acabei me mudando para cá. A condição aqui é decadente. Você acha que alguém viria para cá se não fosse por necessidade?", questionou.

Nesta sexta-feira, ele se apressava para desmontar a casa e se mudar para a zona rural, onde um amigo cedeu um espaço para ele ficar. "São 15 quilômetros de terra, pedra e poeira para a gente andar para ir trabalhar. Eu trabalho nos Cinco Conjuntos."

Enquanto a maioria dos moradores desmontava suas moradias, uma parte deles transferia seus pertences para barracos construídos poucos metros acima em um terreno público que, segundo os invasores, deveria ter sido construída uma praça. "Vamos ficar por aqui porque aqui não faz parte do terreno particular e da reintegração de posse", revelou uma moradora.

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