O policial militar Jorge Setsuo Kobayashi, 37 anos, baleado no dia 11 de março durante uma tentativa de assalto, convive atualmente com o resultado cruel da violência e com a preocupação de conseguir recursos para pagar a dívida de R$ 19,5 mil contraída para comprar os materiais utilizados durante a cirurgia a que foi submetido. Kobayashi acabava de sair de uma escala extra de trabalho quando foi ferido, mas o Sistema de Assistência à Saúde (SAS), que atende os funcionários públicos do Estado, não cobriu as despesas com prótese, hastes de titânio e enxerto ósseo, entre outros itens.
  Um irmão emprestou um cheque pré-datado para cobrir os gastos, e agora a expectativa é que o Fundo de Assistência à Saúde (FAS-PM) cubra a maior parte da despesa. Mas 41 dias depois do acidente, o dinheiro ainda não veio, e o policial – que perdeu os movimentos e a sensibilidade da cintura para baixo – só conta com a ajuda dos companheiros de trabalho, entidades civis e comunidade.
  ‘‘O FAS é um fundo administrado pela própria corporação, e não pelo Estado. Não dá para entender por que esta demora, esta falta de discernimento. Graças a Deus não esperamos pelo dinheiro para fazer a cirurgia, porque com esta demora, as chances do Kobayashi voltar a andar seriam muito menores’’, afirma a representante do Movimento das Esposas dos Policiais Militares, Vera Rubbo, uma das entidades que se mobilizaram para ajudar o policial.
  Além de sair em busca de doações, o Movimento está organizando uma rifa. ‘‘O Comitê de Solidariedade da Sercomtel doou cadeira de rodas, colchão especial e cadeira de banho, que estão sendo fundamentais. Mas tem gente que ouviu dizer que o FAS vai cobrir as despesas da cirurgia e não está querendo ajudar. Não sabem que as dificuldades são muitas. Por exemplo, o Fundo se baseou no preço de materiais nacionais para definir o valor a ser pago, que deverá ser de R$ 11 mil, mas os médicos utilizaram materiais importados, mais caros’’, explica Vera.
  Kobayashi, por sua vez, prefere não falar das dificuldades com a liberação dos recursos. Acompanhado dos pais que vieram de Sertaneja (63 km ao norte de Cornélio Procópio) e de uma enfermeira, ele relembra a noite de março que transformou a sua vida. ‘‘Eu estava voltando do Estádio do Café e parei no posto (na Zona Oeste) para abastecer minha moto, quando vi um garoto vindo em minha direção, com uma barrafa pet nas mãos, como se estivesse indo comprar combustível. Ao chegar perto de mim, ele jogou a garrafa e tirou uma arma da cintura.’’
  Controlando a emoção, o policial descreve a cena: ‘‘Ele colocou a arma perto do meu rosto, e eu, no instinto de salvar minha vida, reagi, entrando em luta corporal com ele. Eu já tinha conseguido desarmá-lo, quando um garoto ainda menor, que não deve ter nem 12 anos, uma criança mesmo, saiu de trás de uma bomba de combustível, pegou o meu revólver (Kobayashi estava com a calça do uniforme e com a arma de trabalho na cintura) e atirou nas minhas costas. Foi uma covardia’’, define.
  O tiro dado à queima-roupa entrou pelo ombro, perfurou o pulmão e se alojou entre a 6ªe 7ª vértebras da coluna. Naquela fração de segundo, o policial foi também vítima de uma ironia: ser atingido pela violência que tentava combater, em seu trabalho na Patrulha Escolar. ‘‘Há dois anos e três meses eu havia abraçado a causa de cuidar das crianças e jovens. Jamais imaginei que dois deles iriam fazer isso comigo.’’
  Por ser feriado, a reportagem não conseguiu contato com o FAS.

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