'Platina City' custou 10 bois
A cinco quilômetros do Centro de Santo Antônio da Platina (Norte Pioneiro) encontra-se uma localidade desolada, Platina. Mas, nos bons tempos do trem, foi ''Platina City'', nome quase apagado em duas placas enferrujadas nas laterais da estação, lembrando algum ramal-fantasma do faroeste americano.
Na estação, com parte do telhado ruindo, Gisleine das Dores Camargo, 25 anos, diz que pagou R$ 1.500 pelos ''direitos'' sobre o imóvel, ao morador que ali se encontrava. Com três filhos pequenos e o marido desempregado, ela não entende o aviso do presidente da Associação de Preservação Ferroviária de Jacarezinho (APFJ), João Mendes de Oliveira, que informa que o prédio foi ''tombado, é patrimônio histórico'', e a família não vai poder permanecer.
Atrás da estação, o terreno está ocupado por Dionísio Massaruti, morando com a esposa e quatro filhos numa casa de madeira das mais toscas, tendo um pasto cercado nos fundos para vacas leiteiras, que é o seu negócio, enquanto alguns porcos são criados soltos na lama. Dionísio veio de Joaquim Távora e afirma que pagou o equivalente a R$ 10 mil ao antecessor. ''Dei dez bois, tenho recibo.'' Mas é domínio da ferrovia, existindo ação judicial no sentido de que a ALL retome a área, retruca João Mendes, já num tom autoritário.
Dionísio não se dá por achado, desviando a conversa: ''Quanto de impostos tem aí nessa ferrovia? Quanto nós pagamos e agora o governo entrega aos outros?''
Mendes modera o tom: ''Não somos nós que vamos tirá-lo daqui''. Ele pondera que talvez seja caso de a APFJ interferir para que a família seja acomodada em outro lugar. ''Só que eu vou esperar o fim. Não tenho mesmo para onde ir'', argumenta Dionísio, referindo-se à ação na Justiça. Diz que sair agora não adianta: ''Pobre é igual bicho de pé, sai um entra outro no buraco.''
Em ação civil pública tramitando, o Ministério Público Federal pede a recuperação de todas as estações, inclusive as não-tombadas, e da faixa de domínio (25 metros de cada lado da ferrovia); identificação de todas as casas da RFFSA e um plano de desocupação e restauração. (W.S.)





