Famílias carentes de Cascavel estão plantando alimentos básicos em terrenos baldios na versão 98 do programa ‘‘Lote Produtivo’’ e a previsão é que sejam ocupados 3 mil imóveis, por 1.300 famílias. Em anos anteriores, já chegaram a ser ocupados mais de 13 mil terrenos, o que indica ‘‘um inexplicável esvaziamento do programa’’, segundo o autor da lei que o instituiu, o vereador Aderbal de Mello (PT). O secretário de Desenvolvimento Rural Agassiz Linhares nega o esvaziamento e afirma que em anos anteriores os números ‘‘eram superestimados’’.
O Lote Produtivo, criado em 1993, permite às famílias cultivar terrenos de terceiros, geralmente com autorização, mas isso também ocorre à revelia, sem contestações, porque os proprietários não precisam gastar com capina ou roçada.
Estima-se que haja 30 mil lotes baldios na cidade e os que não são limpos fazem proliferar insetos, ratos e também servem como esconderijo para marginais e produtos de roubo. Por isso, o programa cumpre as funções social e de melhoria do urbanismo, com custo praticamente zero para o Município, observa o vereador Aderbal de Mello.
A prefeitura dá assistência técnica, ramas de mandioca e sementes (parte doada por empresas) de milho, feijão, arroz, pepino, abobrinha, melancia e outros produtos de fácil cultivo. Além de garantir o abastecimento próprio, as famílias comercializam o excedente, garantindo renda complementar. Já no primeiro ano, 2,4 mil famílias cultivaram 6,6 mil terrenos, e o número foi crescendo a cada ano, até chegar a 4,7 mil famílias e 13,3 mil lotes, segundo estatística fornecida anualmente pela prefeitura.
Aderbal diz não acreditar que o programa esteja sendo esvaziado por ter se originado em projeto ‘‘de um vereador de oposição’’ e ter sido motivo de propaganda da administração anterior, do prefeito Fidelcino Tolentino (PMDB), ferrenho adversário do atual prefeito, Salazar Barreiros (PPB). Para o vereador, a vinculação política ‘‘seria um absurdo’’, pelo profundo alcance social e outros resultados. ‘‘Ainda mais com a situação cada vez mais difícil vivida pela população pobre’’, diz. Por isso prefere apontar a ‘‘falta de sensibilidade e visão social da administração municipal’’.
O secretário Agassiz Linhares afirma que ‘‘em anos anteriores’’ eram divulgados números maiores que os reais sobre famílias e lotes ocupados. Além disso, diz que a estimativa de apenas 3 mil terrenos plantados este ano não considera a existência de ‘‘muitos outros nos quais está sendo plantado mandioca, com ramas da safra anterior’’. Por isso, menos famílias teriam se cadastrado. O secretário rebate a acusação de que o programa está sendo esvaziado: ‘‘Há sementes disponíveis, à vontade, e no ano passado até sobrou’’, garante.
O trabalhador braçal Antônio Ferreira da Silva, 60 anos, 9 filhos, que se diz ‘‘abandonado pela mulher’’, está plantando as sementes que recebeu em cinco lotes no bairro Santo Onofre (zona oeste). Ex-lavrador, ainda tentando ‘‘arrumar papéis’’ para a aposentadoria, Antônio diz que faz o plantio há 5 anos ‘‘e dá para garantir um reforço na bóia’’.
E vendendo o que sobra, dá para ganhar ‘‘um dinheirinho extra’’. As famílias contempladas pelo Lote Produtivo comercializam o excedente de porta em porta ou entregando para mercearias dos próprios bairros.

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