Dalvina Walenga de Souza, mãe do rapaz de Cascavel: ‘‘O que aconteceu com o Rafael pode acontecer comigo’’
Dia 13 de março, pouco antes do meio-dia, bairro Cancelli, zona oeste de Cascavel. Rafael Walenga, 22 anos, deixa a casa humilde da mãe, Dalvina Walenga de Souza, 38 anos, dizendo que voltaria para o almoço. Não voltou. No bolso, nenhum centavo – por isso, não poderia viajar. Passados dois meses e meio, Dalvina se convence cada vez mais de que o filho foi mesmo assassinado. Ele nunca telefonou para a mãe, como era háábito quando ficava alguns dias fora.
áááWalenga foi testemunha da comissão criada na Assembléia Legislativa para investigar o narcotráfico e o ácrime organizado no Estado. Chegou a ser ouvido informalmente por alguns membros da CPI. Demonstrava saber do envolvimento de policiais de Cascavel com drogas e outros crimes.
Dalvina não cansa de exibir faturas telefônicas nas quais aparecem números de aparelhos de policiais, em ligações feitas pelo filho – o que comprovaria o vínculo entre eles. Por ter medo, ela prefere não revelar nomes. ‘‘O que aconteceu com o Rafael pode acontecer comigo’’, justifica.
A suspeita de Dalvina, no entanto, é clara: o filho teria ‘‘sido sumido’’ por policiais. A 15ª Subdivisão Policial de Cascavel decidiu espalhar um comunicado do desaparecimento para outras subdivisões do Estado apenas no final de abril. Até então, o delegado-chefe, Haroldo Davison, que sabia da situação por declarações da mãe na imprensa, não havia determinado a procura alegando que Dalvina deveria registrar a queixa do desaparecimento. Além disso, ele havia afirmado ser ‘‘um alívio para a população de Cascavel’’ se Walenga estivesse mesmo desaparecido. Depois, tomou a iniciativa de convocar Dalvina para formalizar o registro.
No comunicado a outras subdivisões, a 15ª SDP distribuiu uma foto de Walenga – anexada ao registro da Seção de Furtos e Roubos, onde eleá ficou detido no ano passado para averiguação do furto de um toca-fitas. Quando menor, o rapaz teve várias passagens pela polícia, por pequenos delitos. Também já foi usuário de drogas. Antes de desaparecer, Walenga havia dito que policiais e uma pessoa ligada ao Judiciáário o obrigavam a roubar (inclusive o toca-fitas), para dividir com eles os produtos. Afirmara também que sabia de detalhes das ligações dessas pessoas com o narcotrá©áfico.
Dalvina diz que quer o filho de volta, ‘‘mesmo morto’’, para encerrar a angústia.
Depois do desaparecimento, a moça com quem Walenga vivia perdeu o filho que esperava.ááá Em Cascavel, o rapaz é comparado com Pixote, menor delinquente e que interpretou a si mesmo no filme homônimo. Pixote foi assassinado por policiais em São Paulo, em 1987, porque sabia demais sobre as atividades criminosas deles.
Semanas antes do sumiço de Walenga, circulou em Cascavel uma carta, com suposta assinatura sua, apontando o envolvimento de várias pessoas conhecidas na cidade com drogas. Entre os nomes estavam empresáários, autoridades, políticos e ájornalistas, sobre os quais nunca houve suspeita.
Imediatamente, Walenga foi atráás da maioria dos citados, e jurou-lhes que a carta não era de sua autoria e a assinatura poderia ter sido ‘‘transferida’’ de um depoimento que havia dado à Polícia Civil. Ele entendia tratar-se de uma ‘‘armação’’ para jogáá-lo contra a opinião pública.á Dalvina Walenga tira a mesma conclusão: ‘‘Aquela carta foi uma preparação para o que fizeram com ele.’’
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