O delegado da Polícia Civil Mário Ramos e o comerciante de auto-peças Paulo Mandelli são acusados de falsidade ideológica. O crime prevê de um a cinco anos de cadeia em caso de condenação. Eles foram denunciados pela Promotoria de Investigações Criminais (PIC) na 11ª Vara Criminal de Curitiba. Uma pistola Glock 9 milímetros é a peça-chave do caso. Ramos, que apreendeu a pistola com o comerciante em 1995, não teria prendido Mandelli em flagrante por porte ilegal de arma. Um ano depois, a mesma pistola foi registrada em nome do deputado Aníbal Khury (morto em agosto do ano passado).
De acordo com a PIC, Mandelli, que também responde a processos por comandar desmanches de carros furtados no Estado, forjou uma nota de importação da pistola para tentar legalizar a arma, cujo número de série é ARA105. O promotor Fábio Guaragni disse que o Exército alegou não ter recebido qualquer comunicado de compra da arma no exterior. A Glock 9 mm é de uso exclusivo das Forças Armadas, que fiscaliza sua entrada no País. Em mãos civis, só pode ser encontrada com colecionadores.
Um termo de declaração de 2 de junho de 1995 coloca Mário Ramos na apreensão. O delegado chefiava na época a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos. Ele informou no termo ter apreendido a pistola no dia 31 de maio ‘‘em checagem de rotina.’’ O acusado mencionou que Mandelli reclamou a pistola no dia 2 de junho ao apresentar a nota de importação. Ao invés de prender Mandelli, segundo o promotor, Ramos aceitou o argumento e nomeou o próprio Mandelli como fiel depositário da arma. No dia 11 de julho de 1996, a pistola passou a ser registrada em nome do deputado estadual Aníbal Khury.
Conforme depoimentos de familiares do deputado na PIC, Khury era colecionador de armas. No sistema de identificação da Polícia Civil, a pistola em nome do deputado tem o mesmo número de série da arma apreendida com Mandelli: ARA105. A informação oficial é de que a Glock está desaparecida. O promotor Fábio Guaragni citou que parentes do deputado disseram que algumas armas do acervo tinham sido extraviadas. Para ele, a investigação principal foi confirmar as estreitas ligações entre Ramos e Mandelli.
O advogado de Ramos, René Dotti, contesta a promotoria. ‘‘A denúncia é um paradoxo. Se o doutor Mário quisesse cometer um crime de prevaricação, não teria feito o auto de apreensão da arma’’, disse. Sobre a informação do Exército desconhecer a entrada da pistola no País, Dotti diz que ‘‘um documento’’ - sem especificar qual - está sendo procurado no inquérito policial para rebater a informação. O advogado de Mandelli, Osmann Santa Cruz, foi procurado pela Folha em seu escritório, mas não houve retorno das ligações na tarde de ontem.

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