Piscicultura pode preservar mananciais
Piscicultura pode preservar mananciais
Cultivo de peixes estimula agricultores a melhorar qualidade da água dos mananciais, evitando uso de agrotóxicos
Guilherme Vieira
e Vânia Casado
Arquivo Folha
ManancialCerca de 80% das áreas agrícolas da RMC estão concentradas nos locais onde se coleta água para 2,5 milhões de habitantesO agricultor Élvio Silveira, dono de uma pequena propriedade rural no município de Campo Largo, Região Metropolitana de Curitiba (RMC), passou a prestar mais atenção na qualidade da água de sua localidade depois que os peixes passaram a lhe render lucros. A preocupação com os mananciais ganhou espaço na vida de Silveira depois que construiu quatro tanques de piscicultura, em que mantém cerca de 2 mil exemplares de peixes da espécie pacu.
Essa mudança de comportamento surgiu quando Silveira percebeu que seu investimento poderia se perder pelo ralo, se os tanques fossem contaminados por agrotóxicos, ou uma erosão em propriedades vizinhas causasse o rompimento dos reservatórios, atrapalhando o negócio que em sete meses lhe rendeu R$ 1 mil.
Como Silveira, outros 95 produtores rurais da RMC também construíram tanques e deixaram de ser omissos em relação à qualidade da água dos mananciais. Quem está comemorando a mudança de postura desses agricultores em relação à qualidade da água são os técnicos da Empresa Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater). Segundo o coordenador de Recursos Naturais, Ednei Bueno do Nascimento, os produtores, que antes exploravam a terra sem nenhuma preocupação ambiental, passaram a ter um estímulo a conservar suas propriedades e a fiscalizar o trabalho feito por seus vizinhos, em uma região em que o uso de agrotóxicos é muito difundida. O problema é que a contaminação dos mananciais na RMC vinha aumentando, causada principalmente pela concentração de 80% das áreas agrícolas nos locais onde é feita a coleta de água para 2,5 milhões de habitantes, disse Nascimento.
Para tentar reduzir esses números, até agora já foram implantados 200 tanques e a meta da Emater é construir 515 unidades de 800 metros cúbicos na região até o fim do ano. Isso vai garantir a reserva de um volume de água de cerca de 412 mil metros cúbicos. Nascimento explica que essa reserva é significativa e poderá ser usada em irrigação, alimentação dos animais e na melhora do equilíbrio ambiental conseguida com a regulamentação dos volumes dos rios. Cada produtor vai poder usufruir por 40 horas de máquinas subsidiadas pelo governo do Estado através do Programa de Saneamento Ambiental da Região Metropolitana de Curitiba (Prosam), somando investimentos de R$ 315 mil.
Outro ponto favorável da instalação dos tanques nesa região é a proximidade com o Aquífero Karst. Segundo o coordenador da Coordenação da Região Metropolitana (Comec), Gil Polidoro, esses tanques devem recarregar o Karst, um lençol de águas subterrâneas localizado nos calcários da RMC, através da infiltração da água no solo.
Estudo - Um estudo realizado em 1984 por quatro técnicos da ex-Superintendência dos Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Surehma) alertou, na época, para a gravidade da contaminação dos mananciais. Esse trabalho revelou que pelo menos 70% das amostras de água tratada para o abastecimento no Paraná apresentam contaminação por agrotóxicos, e segundo a técnica Vânia Regina Saboia Zappia, uma das integrantes da equipe, pouca coisa mudou de lá para cá.
Essa contaminação acontece porque os agrotóxicos aplicados nas lavouras deixam resíduos que são levados pelas chuvas para os rios e lagos que compõem o manancial para abastecimento das populações. Atualmente já existem mais de 600 marcas comerciais de produtos, e pelo menos 200 princípios ativos novos não são verificados pela Sanepar. Isso acontece porque as estações de tratamento não estão preparadas para analisar os metais pesados, organoclorados e organosfosforados, os princípios ativos mais comuns usados no meio agrícola.
Preocupada com o problema a Sanepar está comprando dois equipamentos de análise de água, avaliados em R$ 300 mil cada um, para se adequar aos novos produtos que estão no mercado, informou o químico André Luiz Faria, da Unidade de Avaliação de Conformidade do Laboratório Central de Água, da Sanepar. Segundo Faria, nas bacias dos rios Iguaçu e Iraí, na Região Metropolitana de Curitiba, são poucos os resíduos de agrotóxicos, mas o técnico admite que na bacia do rio Passaúna, a presença de resíduos é maior, em função das áreas de plantio próximas ao manancial.





