Pirataria envolve lavagem de dinheiro
Marcos Zanatta
De Maringá
A Delegacia da Polícia Federal de Maringá enviou ontem à Justiça o inquérito do chamado Grupo Furlan, que investigava a pirataria fonográfica, mas acabou resultando na descoberta de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. As investigações começaram em setembro do ano passado, quando a Polícia Federal apreendeu na empresa Max Fitas, do empresário Eder Carlos Furlan, 2,5 milhões de fitas, CDs e máquinas de reprodução fonográfica sem documentação. O inquérito tem 22 volumes e mais de 10 mil folhas. Indicia, além de Eder Furlan, outras 15 pessoas que tinham alguma ligação com os negócios dele.
Ontem, o delegado que presidiu o inquérito, Antonio Borges, de Brasília, apresentou o resultado das investigações. Foi quebrado o sigilo bancário, fiscal e telefônico de seis pessoas físicas e empresas. O mais importante é que todo inquérito está fartamente documentado, explica Borges.
Durante o trabalho, a polícia encontrou na casa do empresário recibos da compra de dólares em casas de câmbio de Ciudad del Este, no Paraguai. Outros documentos, encontrados também na casa de Furlan, mostravam a remessa de valores iguais para pagamento de empresas na Coréia.
Documentos em poder da polícia comprovam que em 30 dias, entre julho e agosto de 98, Furlan enviou US$ 500 mil para fora do Brasil. Alguma coisa ele importava de forma legal, mas o volume maior vinha ilegalmente, diz Borges. Os policiais encontraram também documentos que comprovam a existência de caixa 2 na empresa Max Fitas. Borges apurou que em 1997 a empresa teve um faturamento declarado de R$ 3,9 milhões, mas um movimento real de R$ 11 milhões.
Furlan só declarava um terço do que faturava na empresa, compara o delegado. Os números foram cruzados com declarações de Furlan à Receita Federal, onde ele informou um prejuízo de R$ 288 mil no mesmo ano, mas na realidade teve um lucro de R$ 764 mil.
Na casa do empresário a polícia achou ainda talonários de oito empresas, com endereços de todo o País. Ficou comprovado depois que as notas eram preenchidas em uma máquina da empresa Max Fitas para comprovar operações frias de compra e venda, onde sonegava o imposto que deveria recolher.
Outro talonário, da própria empresa Max Fitas, era usado quando o cliente pedia nota. Só que o talonário em duplicidade também permitia a sonegação, explica Borges. Os demais indiciados, explica o delegado, são ex-funcionários da Max Fitas que tinham conhecimento dos crimes ou pessoas envolvidas com o esquema de Furlan.
Outra irregularidade cometida por Furlan, comprovada pela Polícia Federal, é que depois do início das investigações, em setembro de 98, a Max Fitas ficou sem caixa. Para fazer capital Furlan vendeu, em dezembro, o prédio onde funcionava a empresa a um laranja. O valor da venda, de R$ 110 mil, foi detectado depois em operações da empresa. O inquérito finalizado, pelos cálculos de Borges vai gerar outros 11 inquéritos policiais para investigar ações paralelas, principalmente contra casas de câmbio de Maringá, Londrina e Foz do Iguaçu, e empresas de São Paulo.
Borges disse que Furlan será indiciado por violação de direitos autorais, falsificação de documentos, contrabando ou descaminho, sonegação fiscal, evasão de divisas, lavagem de dinheiro, uso de software pirata e crime organizado. A pena mínima pode chegar a nove anos de reclusão. Borges acha que a Procuradoria da Justiça Federal, diante das provas anexadas ao inquérito, pode pedir a prisão de Furlan a curto prazo.
O empresário Eder Furlan não foi encontrado ontem na outra empresa que tem em Maringá. A secretária dele disse não ter autorização de informar o número do telefone dele e anotou o recado, mas Furlan não retornou a ligação.PF descobriu esquema de evasão de divisas ao investigar pirataria fonográfica na região; 16 pessoas foram indiciadas
Ossamu KandaOPERAÇÕES ILEGAISDelegado Antonio Borges mostra volumes do inquérito; ao lado, prédio onde funcionava a empresa de Furlan, que em 97 teve faturamento declarado de R$ 3,9 milhões, mas movimento real de R$ 11 milhões





