'Piquete-surpresa' deixa 22 mil sem ônibus
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terça-feira, 26 de julho de 2005
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Muita gente teve que se virar como pôde. A pé, de mototaxi e de carona, as pessoas tentavam chegar ao seu destino, principalmente ao trabalho. Um ''piquete-surpresa'' do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Londrina (Sinttrol) no portão da garagem do empresa Francovig, operadora de 15% do transporte coletivo, impediu que 65 ônibus deixassem o pátio. Apenas dois veículos que faziam o horário ''corujão'', durante a madrugada, continuaram circulando.
O diretor administrativo da empresa, Francisco Henrique Francovig, acredita que 22 mil pessoas tenham ficado sem transporte nas primeiras horas do dia. O número foi confirmado pela CMTU e corresponde aos passageiros das nove linhas distritais e 12 que fazem o percurso entre os terminais Urbano Central e Acapulco.
Por volta das 3h30, os sindicalistas atravessaram em frente do portão da garagem uma blazer e um gol, impedindo que, do total de 320 trabalhadores da empresa, cerca de 100 não pudessem trabalhar. Francisco Francovig disse que foi avisado sobre o bloqueio, às 4 horas. Porém, o portão só foi liberado para que os ônibus voltassem a circular às 8 horas.
O Sinttrol alega que a empresa não quer assinar um instrumento particular de transação extrajudicial com o sindicato, que estabelece critérios de pagamento de débitos em atraso, decorrentes de acordos em convenções coletivas de trabalho anteriores. Para os sindicalistas, a ação foi uma alternativa política. ''Há outros meios de cobrarmos isso, que é o judicial, o que não impede ser o meio político também uma alternativa, uma vez que a empresa está abusando da nossa boa vontade'', afirmou o presidente do Sinttrol, João Batista da Silva.
O total da suposta dívida de R$ 191.997,51 seria referente ao não pagamento de 1% de contribuição assistencial na razão das remunerações de todos os empregados da empresa, 1% dos salários básicos de todos os empregados a título de fundo social e a contribuição para com a Federação do Transporte de Passageiros (Fetropassgeiros). ''Sobre essas mesmas contribuições, ele (Francisco Francovig) assinou e não pagou'', afirmou o presidente do Sinttrol.
Francovig disse que uma dívida não pode ser cobrada da maneira como foi, prejudicando os usuários do transporte coletivo. ''Vamos responsabilizar o sindicato pelo ato, que prejudicou a população. Uma dívida não pode ser combrada assim. Existem meios legais para isso, que é o judiciário e não deixar a cidade sem um serviço essencial. Não entendo. O acordo está assinado pela empresa'', alegou Francovig.
Motoristas e cobradores foram pegos de surpresa ao chegarem para trabalhar. ''Cheguei às 4h40 e o pessoal não deixou a gente entrar. De um lado, a empresa está certa porque eles (Sinttrol) fizeram um manifesto por interesse deles'', afirmou o cobrador Joaquim Monteiro, 58 anos.
O motorista Emerson Machado, 33 anos, também não concordou com a manifestação. ''Acho errado. Tem que deixar o povo trabalhar. Esse é um problema do sindicato e da empresa''.
A certa altura da manhã, motoristas e cobradores tentaram entrar na garagem. Houve bate boca. A Polícia Militar foi chamada, mas não aconteceu nenhum incidente maior.
No meio do impasse, a população foi quem sofreu com a paralisação. A vendedora ambulante Elídia Cavalcanti, 38 anos, andou a pé do Conjunto Jamile Dequech até o Jardim Ouro Branco (Zona Sul), onde conseguiu uma carona para chegar ao centro da cidade. ''Foi o meu filho quem me avisou. Logo cedo, ele costuma pegar a marmita para ir para o trabalho e me disse que estava tudo paralisado. O rapaz falou: 'Mãe, prepara as canelas porque hoje não tem ônibus''', lembrou a ambulante.


