Soltar pipa é uma brincadeira que parece inofensiva mas que pode causar transtornos e até tragédias. Embora os riscos sejam amplamente divulgados, muitas crianças ainda ignoram os perigos e se aventuram em locais inapropriados, como próximo a postes de energia elétrica. Segundo a Copel, somente este ano 135 mil domicílios de Londrina e cidades vizinhas ficaram sem luz devido ao grande número de pipas enroscadas na rede de distribuição da companhia.
Ontem, uma equipe da Copel passou o dia todo retirando pipas enroscadas nas linhas de transmissão localizadas na Rua Manoel Borba Gato, no Jardim Novo Bandeirantes, na divisa entre Londrina e Cambé. ''Essa é a área mais atingida. Nos últimos 30 dias, foram registrados três desligamentos nesta área, em cada um deles 35 mil residências ficaram sem luz devido aos curtos-circuitos provocados por pipas neste local'', explicou o o engenheiro responsável pela manutenção das linhas na região, Limerci Aparecido Gaspareto.
Segundo ele, foram localizadas mais de 100 pipas em um trecho de 2,5 quilômetros da rua. ''O fundo de vale que há nesta rua acaba atraindo as crianças para brincarem por aqui'', avaliou Gaspareto.
Um fator que chamou a atenção da equipe da Copel é que até então as pipas costumavam atingir postes normais da rede de distribuição e agora estão atingindo cabos de alta tensão de superpostes da linha de transmissão. ''Os superpostes têm 19 metros, o dobro de tamanho dos demais. Eles também oferecem um risco muito maior, pois a descarga elétrica deles é em de 138 mil volts, enquanto que os postes comuns têm uma descarga de 13 mil volts'', alerta.
Queimaduras
Gaspareto alertou que o contato da pipa com os fios de alta tensão pode provocar choques, queimaduras nos pés ou nas mãos e até a morte da pessoa. ''Esses riscos são ainda maiores quando a criança usa cerol (vidro moído com cola) ou pó de ferro na linha da pipa. Esse material é condutor de energia e aumenta as chances de acidentes'', ressaltou. ''Lembramos ainda que as crianças nunca devem tentar tirar as pipas enroscadas no postes para que não sofram uma descarga elétrica, que pode ser fatal'', acrescentou o engenheiro.
O trabalho de retirada das pipas foi realizado sem o desligamento da rede de energia elétrica. Os eletricistas da Copel utilizaram bastões e caminhão com isolamento para garantir a segurança da equipe. Já os desligamentos ocasionados por pipas ocorrem automaticamente e duram cerca de quatro minutos. ''Entretanto, dependendo da gravidade do acidente o religamento pode demorar até quatro horas'', informou Gaspareto.
Ele lembra que os desligamentos causam grandes prejuízos a milhares de pessoas pois atingem semáforos, hospitais e escolas, entre outros estabelecimentos. ''Por isso pedimos que os pais e as escolas orientem as crianças a soltarem pipas somente em parques e áreas longe da rede elétrica. Essa orientação é repassada anualmente a cerca de 100 mil crianças da rede pública de ensino de todo o Paraná em palestras que realizamos nas escolas'', destacou o engenheiro.
Brincadeira consciente
Dois meninos que brincavam na Zona Leste de Londrina afirmaram à reportagem da FOLHA que sempre procuram soltar pipa longe dos postes de energia elétrica. ''Ouvi na escola que a gente corre até risco de morrer se a linha da pipa enroscar no poste. Contei pra minha mãe e agora ela só me deixa soltar pipa longe dos postes'', afirmou um garoto de 11 anos que cursa a 3 série do Ensino Fundamental.
''Também fiquei sabendo que o cerol na linha da pipa pode causar cortes e provocar choques se tiver contato com os fios da rede elétrica. Por isso nunca passo nenhum material na linha da minha pipa'', enfatizou outro menino de 8 anos, estudante da 2 série.

mockup