Bem ali, na Rua Paz, no Conjunto Ruy Virmond Carnasciali, Zona Norte de Londrina, um grupo bastante animado de amigos passa as férias empinando pipa. Vitor Hugo, Vinícius, João, Lucas, Leonardo e Eliaquim não cansam de colocar no ar o brinquedo preferido das tardes de julho.
E a brincadeira é saudável, como eles mesmos contaram, já que nenhum deles tem permissão - ou desejo - de utilizar cerol para ''cortar'' a pipa do amigo e ganhar o céu mais rápido. ''A gente não usa cerol porque pode cortar o pescoço de alguém'', afirmou Eliaquim. E os amigos fazem coro.
Pertinho dali, na Avenida Saul Elkind, outros meninos não são tão cuidadosos com a vida alheia como os garotos da Rua Paz. No fim de tarde da última segunda-feira, o fotógrafo Rogério Torresan, 35 anos, foi ferido no pescoço por uma linha com cerol. Ele teve um corte de 15 centímetros e precisou levar 12 pontos.
''Eu não percebi nada, quando vi, já tinha caído da moto'', lembrou. Torresan confessou ainda estar assustado com o acidente. ''Não posso nem ver pipa''.
Ele foi socorrido por uma enfermeira que passava no local e prestou os primeiros socorros. Os funcionários de uma farmácia em frente ao ponto onde o fotógrafo caiu da moto também o ajudaram. Ele foi encaminhado ao Hospital da Zona Norte para os curativos e deve ficar parado por pelo menos dez dias. ''Preciso de repouso porque o corte atingiu um pequeno vaso sanguíneo, mas não corro risco.''
Quando criança, o fotógrafo costumava empinar pipas, mas nunca usou cerol. ''Na minha época a educação era outra'', disse Torresan, que passou o ensinamento ao filho. ''Ele empina pipa mas sabe que não pode usar cerol porque machuca.''
Lá no Ruy Virmond, apesar de não usarem cerol, os meninos da Rua Paz conhecem outros garotos do bairro que utilizam a mistura de vidro, cola e água. Eles contaram que há alguns anos um bazar do bairro vendia o produto pronto, com a pipa. ''Eles não vendem mais, não. Quem quer usar, faz seu próprio cerol'', assinalaram.
No bazar, Maria Aparecida Geraldina de Paiva vende diariamente 150 pipas. Para ela, que está há 12 anos no bairro, a melhor época para o comércio de papagaios são mesmo os meses de julho e agosto. ''Meus filhos que fazem para vender'', assinalou.
Além da pipa pronta, Maria Aparecida vende também o papel de seda, a vareta, a linha, a cola e a rabiola para montar o brinquedo. Mas ela garantiu que não comercializa o cerol. ''Os próprios meninos é que fazem.''
O sargento José Eduardo Carvalho Rodrigues, do Corpo de Bombeiros de Londrina, desconhece a existência de uma lei que proíbe o uso de cerol nas pipas. Segundo ele, as ocorrências de acidentes envolvendo cerol concentram-se nos períodos de férias, principalmente nas zonas periféricas da cidade.
Em caso de acidente, Rodrigues sugeriu pressionar o local cortado para estancar o sangramento e chamar o socorro o mais rápido possível. ''Alguns motociclistas utilizam aparadores na moto para não se machucarem. Mas se estiverem com a viseira do capacete abaixada eles não vêem a linha'', alertou o sargento.

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