Pioneiros têm noite de festa e lembranças
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sábado, 20 de dezembro de 2003
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Esta última quinta-feira foi um dia de gala e de recordações para 320 pioneiros londrinenses. Eles, que chegaram a Londrina até 1940, foram homenageados com a medalha do ''Sesquicentenário do Paraná'', que marca os 150 anos da emancipação política do Estado completados ontem. A deferência aos pioneiros foi realizada pela Secretaria de Estado de Relações com a Comunidade e faz parte da iniciativa de resgatar o paranismo e reforçar os laços entre os paranaenses. A Folha de Londrina, TV Tarobá e Rádio Paiquerê AM encamparam a promoção do evento.
Os presentes à cerimônia eram pioneiros como Maria de Jesus Sarmiento Munhoz, 88 anos, que lançou moda na Londrina dos anos 40 ao se tornar a primeira mulher a ter sua própria loja o Palácio das Noivas e a ''primeira a circular de botas'' pelas ruas barrentas da cidade. Natural de Agudos Paulista (SP), ela relembrou que chegou em abril de 1940 junto com o pai e outros cinco irmãos para trabalhar em lavouras de café e também no comércio. Ela recebeu a medalha das mãos do governador Roberto Requião. Representando todos os pioneiros de Londrina, o empresário Antônio Sávio, que chegou por aqui em janeiro de 1939, falou em nome de todos: ''Londrina é o que é pela força de vontade, pelo trabalho e pelo entusiasmo de todos que receberam medalhas e de tantos outros que já se foram.''
Num discurso de quase meia hora, o governador destacou que partiu dos pioneiros a vocação agroindustrial do Paraná. Requião lembrou das origens da sua família marceneiros italianos e alemães pelo lado europeu e professores sergipanos pelo lado brasileiro para dizer que se considerava parecido com aqueles que construíram o Paraná. ''Neles procuro o exemplo do meu comportamento.'' O prefeito Nedson Micheleti declarou que ''a homenagem serve para integrar o interior paranaense com a capital''.
Em nome da TV Tarobá, o empresário Everton Muffato, falou do orgulho que sentia em homenagear os londrinenses. Outro apoiador da iniciativa, o empresário J.B. Faria, da Rádio Paiquerê AM, comentou que a medalha foi ''um gesto justíssimo, merecido e que teria que ser feito um dia''. O diretor-fundador da Folha, João Milanez, também foi agraciado com a medalha.
Ajudei a abrir a Avenida Paraná
Hoje ele está aposentado, mas quando chegou em Londrina em 1933, José Bonifácio, 92 anos, contou que derrubou muita árvore para iniciar a construção da cidade. Ajudei a abrir a Avenida Paraná e hoje até não acredito no que Londrina se transformou. Aqui Bonifácio constituiu família e criou os cinco filhos. Depois de ter trabalhado por décadas na derrubada da mata da região, Bonifácio ainda se mantém ativo fazendo artesanato em madeira.
Japoneses não querem voltar
O casal Motoko Ono, 87 anos, e Teruo Ono, 88 anos, não vieram juntos do Japão. Ela chegou ao Brasil em 1934, um ano depois de o futuro marido ter desembarcado no litoral paulista. Os dois se conhecerem em São Manuel (SP) e, alguns anos depois, acabaram rumando para Londrina para trabalhar em lavouras de café na zona leste da cidade. Eles acabaram se naturalizando brasileiros e garantem que não farão o percurso de volta, como dois dos cinco filhos do casal que atualmente moram e trabalham no Japão. Hoje, Londrina está muito melhor do que aquela epóca e nós estamos felizes porque ajudamos a formar essa cidade, comemorou o casal.
Promessa atraiu família polonesa
Os pais de Rita Newberg, 91 anos, saíram de Danzig (hoje Gdanski), na região de fronteira entre Polônia e Alemanha conhecida como Corredor Polonês, em 1932, atraídos pela promessa de uma vida melhor trabalhando na lavoura no norte paranaense. A gente não fazia idéia do que iríamos encontrar por aqui. Quando chegamos, só havia mato, revelou. Apenas umas poucas casas, segundo a pioneira, já tinham sido construídas. Londrina era Londrina. Hoje não é mais, lamentou Rita, lembrando que a casa da família vivia com as portas e janelas abertas. Ela não conseguiu se naturalizar porque se casou com um inglês mas mesmo assim diz que se tornou brasileira desde o começo.
Vim para derrubar o mato
Manoel Henrique Rodrigues, 84 anos, recorda com exatidão o dia em que fincou os pés na terra vermelha de Londrina: Era 30 de agosto de 1936. Vim trabalhar para derrubar o mato que tinha por aqui. A cidade foi a gente que ajudou a abrir, diz orgulhoso. Com os seis filhos criados, Rodrigues disse que se sentia honrado por estar sendo lembrado, em vida, com a medalha do Sesquicentenário da emancipação política do Paraná. Estou muito contente. O povo antigo daqui merece uma homenagem como essa. Ao lado da filha, na primeira fileira de pioneiros, Rodrigues esperava ansioso o momento de colocar a medalha no peito.
Paulista veio visitar irmão e...
Em 1938, a então garotinha Lucilia Cabral Branco de Oliveira, hoje com 86 anos, deixou Sertãozinho, no interior de São Paulo, e chegou a Londrina com um único propósito: Vim conhecer a casa do meu irmão, Henrique Cabral Branco, que era tesoureiro da Prefeitura. A temporada se estendeu e ela, junto com outros quatro irmãos, acabaram fixando residência na cidade. Lucília trabalhou como caixa, uma profissão de muita responsabilidade, numa das únicas lojas que havia, a Casa Azul. Ela conta que era boa em cuidar do dinheiro. Hoje, ela fala com carinho do lugar onde escolheu para viver. Os moradores formavam uma irmandade. Vi Londrina crescer e agora até me perco andando pela cidade.
Fui da primeira turma do Mãe de Deus
A terceira casa construída na Avenida Paraná, localizada na esquina com Rua Brasil, pertencia à família de Maria Alice Brugin de Arruda Leite, hoje com 76 anos. Ela lembra que tinha quatro anos quando chegou em Londrina, em 1931, e como não havia hospedagem no vilarejo, a casa acabou se transformando em pensão. Seu pai era agenciador da Companhia de Terras Norte do Paraná. Maria Alice faz parte da primeira de turma de meninas a concluir os estudos no recém-inaugurado Colégio Mãe de Deus. Por tudo isso, ela também considerou que a homenagem do governo do Estado foi mais do que merecida. Achei que foi muito boa a lembrança, pois muitos que estão aqui não haviam sido lembrados até hoje.


