Boa parte da memória da ocupação indígena em Mococa é assegurada pela lucidez de seu mais velho morador, Augusto Merenciano Gogoia. Com 99 anos, mas aparentando muito menos, ele recorda a chegada de seu avô e outros 40 membros da família no final do século 19. ''A gente veio em 12 barcos, cortando os rios desde Laranjinha (reserva localizada em Santa Amélia, região de Cornélio Procópio) até chegar no Tibagi. Era tudo mato'', conta.
Na nova terra, os recém-chegados depararam-se com ''índio bravo'', nas palavras de Gogoia. ''Eram Kaingang também, mas tudo índio do mato. Usavam tanga e moravam em rancho de folha de palmito. Você tava proseando e eles já armavam a flecha. Não tinha conversa'', lembra, concluindo que os antigos habitantes morreram ou fugiram para longe.
O bisavô de Gogoia foi o último ''coroado'' - como os brancos chamavam os índios não pacificados - da linhagem. Seu avô, Capitão Thimótheo, tinha bom relacionamento com os brancos e, além da patente militar, conseguiu os títulos da terra onde surgiu Mococa em 1903.
O antigo cacique guarda memórias da infância, quando ''a gente cortava as forquias das árvores para fazer casa e cobria com capim de sapé; depois fazia um fogo no chão e dormíamos em volta''. Também era o tempo em que ele tinha medo dos corós extraídos das taquaras em época da florada, mas ''gostava muito'' quando a mãe torrava as larvas na panela. Gogoia assume que prefere a casa atual, de alvenaria, mas faz questão de preservar a história. ''A gente deixou casa antiga de pé, para lembrar. Também deixei uma planta (para picada de cobra), que a gente não usa mais, para as crianças verem como era o remédio do mato''. (V.N.)

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