Pioneira fala sobre 94 anos da imigração
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de junho de 2002
Phoenix Finardi<BR>Reportagem Local 
Ontem foi um dia comum na vida de Tomie Nakagawa. Essa senhora simpática, de 95 anos, nem lembrava que a data era especial: 94 anos de imigração japonesa no Brasil. Em 18 de junho de 1908 atracava no porto de Santos o Kasatu Maru, primeiro navio de imigrantes vindos do Japão. Tomie estava no navio. Ela é a última remanescente da tripulação.
Na época, Tomie ainda não tinha dois anos. Ela veio com os pais e duas irmãs maiores: Minhas irmãs Maria e Bianca eram muito bonitas. Eu não. Ninguém nunca disse pra mim que eu era bonita, reclama Tomie, que até hoje é muito vaidosa.
O Kasatu Maru trouxe 781 japoneses para o Brasil. Eles saíram de Kobe, no Japão, e viajaram 55 dias sonhando com a promessa de muita terra para plantar. A família dela teve que trabalhar muito para tornar o sonho realidade. O pai de Tomie foi colono como a maioria dos quase 200 mil imigrantes japoneses que vieram para o Brasil até o início da década de 40. Depois ele foi meeiro e finalmente conseguiu comprar terras no interior de São Paulo. Ele e a esposa voltaram para o Japão em 1928 levando os filhos mais novos.
Eu nasci no Japão e sou brasileira. Meu irmão que nasceu aqui é japonês conta Tomie. Ela esteve duas vezes em Kumamoto, cidade onde nasceu. Achei bonito mas não quis ficar morando lá. O Brasil é muito melhor, garante.
As primeiras recordações de Tomie não são do Kasatu Maru ela era pequena demais. As lembranças começam na lavoura onde trabalhou com os pais e depois com o marido. Era enxada todo dia. Eu plantava café, arrumava a cova, via crescer e depois colhia, diz Tomie. Era bonito mas eu não gosto de beber café, eu tomo leite.
O Norte do Paraná, ela só foi conhecer na década de 50, depois que se casou. Morou primeiro em Cambé e depois veio para Londrina. Tomie teve sete filhos, 30 netos e já perdeu a conta do número de bisnetos. Nos últimos anos, o passatempo preferido dela era jogar gatebol na Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel). Mas caiu, machucou a perna e teve que abandonar o esporte. Eu já trabalhei bastante, agora estou muito velha, é só comer e dormir, garante Tomie. Mas ela tem uma outra diversão bem brasileira assistir aos jogos da Copa: Nada de Japão nem de Coréia, eu estou torcendo para o Brasil. Sou bem brasileira, tenho que torcer pelo Brasil, né?


