Manoel Godoy
De Guarapuava
Especial para a Folha
A notícia de que um levantamento elaborado pelo Ministério da Saúde com dados de 1997 apontaria o município de Pinhão (40 km ao sul de Guarapuava) em quadragésimo lugar no ranking dos mais violentos do País, divulgada pela Folha de Londrina/Folha do Paraná em sua edição da última quarta-feira, dia 20, despertou preocupação nas autoridades locais. Ainda de acordo com o mesmo levantamento, em segundo lugar no Paraná viriam os municípios de Guaíra, Piraquara e Reserva. Pinhão é município de cerca de 27 mil habitantes e aproximadamente 2.100 quilômetros quadrados, que vive basicamente da madeira e da agricultura e conserva cenas típicas de uma vida rural.
No dia seguinte à publicação da reportagem, o prefeito de Pinhão, Osvaldo Lupepsa (PSDB), consultado para uma entrevista fez questão de reunir várias autoridades das polícias Civil e Militar e do Poder Judiciário para receber a equipe da Folha em seu gabinete. O prefeito declarou haver recebido ‘‘com muita preocupação’’ os dados, que datam de 1997 e foram elaborados com base nos atendimentos do SUS (Sistema Único de Saúde). ‘‘A nossa surpresa – acrescentou ele – é que a gente não sente, assim no dia a dia, uma violência como se vê na pesquisa.’’
Como exemplo, Osvaldo Lupepsa disse que nunca usa seguranças e que dirige seu próprio veículo, ‘‘mesmo se às vezes tenho de sair à noite’’, e que o mesmo acontece com todas as outras autoridades que, presentes à entrevista, confirmaram a afirmação do prefeito.
Lupepsa fez questão de frisar que, com suas declarações, não está querendo dar a entender que Pinhão seria um ‘‘paraíso’’ distante da criminalidade. O prefeito diz que o município reconhece que tem sido marcado, ‘‘principalmente no passado’’, pela ocorrência de crimes violentos e que trabalha para a redução dos atuais índices também através do desarmamento da população.
Ele explicou que, em sua opinião, se os níveis de violência, ‘‘pelo menos ao que parece’’, não seriam tão críticos como os apontados no levantamento do Ministério da Saúde citado na reportagem, por outro lado ‘‘não estamos satisfeitos com eles e consideramos que é preciso baixar ainda mais’’.
Lupepsa afirmou ainda que agora o município vai tentar obter um quadro mais nítido das informações para reavaliar a questão da criminalidade. ‘‘Gostaríamos de aprofundar melhor esses dados, para saber até que ponto eles realmente conferem.’’ Para isso, o prefeito de Pinhão pediu ao assessor de imprensa Vanderlei Martins, na manhã da última quinta-feira, que pesquisasse no site do Ministério da Saúde para tentar encontrar mais detalhes do levantamento e da própria metodologia da pesquisa. ‘‘Pode ser que a situação seja pior do que parece’’, disse o prefeito, acrescentando: ‘‘Se for, nós vamos ter de reavaliar’’.
Na página eletrônica do SUS, o assessor de imprensa disse não ter conseguido encontrar o local onde estaria o levantamento sobre mortes violentas. O contato, segundo ele, ‘‘também não foi possível através de um telefone de informações tipo 0800 que consta na página’’.
Dois dados da pesquisa, no entanto, as autoridades de Pinhão contestam abertamente: o número de homicídios em 97 e o tipo de crime que vem ocorrendo no município. Presente à entrevista do prefeito, o vereador e advogado criminalista Francisco Carlos Caldas mostrou números de um relatório da Polícia Civil de Pinhão, de acordo com o qual em 1997, ao contrário do que foi divulgado, o total de homicídios ocorridos no município foi de oito, cerca de 50% menos do que apontam dados do levantamento divulgado.
Também em contraposição à pesquisa do governo, o vereador disse que a maioria dos crimes ‘‘não são cometidos por filhos de fazendeiros, mas surgem da combinação de bebida e porte de armas’’, em especial na zona rural. As grandes preocupações do município seriam com a cultura de se portar armas de fogo, fato que tanto o prefeito quanto o vereador admitem ser uma realidade em Pinhão, e com a precariedade da estrutura das polícias Civil e Militar. ‘‘O que temos sim, aqui, é problema com a titulação de terras’’, disse o vereador. Mas em sua opinião, o nível dos conflitos ‘‘é até pequeno comparado à quantidade de disputas judiciais’’ em torno das demarcações e posses.
O delegado de polícia de Pinhão, Dirceu Nivaldo de Oliveira, também contestando a pesquisa, disse que ‘‘o último homicídio registrado no município ocorreu em junho’’ e que, até o momento, em 99, o número chega a oito, incluindo a morte de uma vítima menor de idade. O índice é o mesmo contabilizado pela Polícia Civil do município no ano passado.
Surpreso em relação à metodologia do levantamento do SUS, o delegado explicou que ‘‘esses dados do relatório que a gente tem, que é elaborado mês a mês, são os mesmos que se pode encontrar na Divisão Policial do Interior em Curitiba’’, porque são enviados para a DPI pela própria Polícia Civil. Por este motivo, em sua opinião, esses números deveriam ser levados em consideração em qualquer levantamento sobre mortes violentas no município.
O mesmo relatório da Polícia Civil de Pinhão aponta que na história de crimes com armas de fogo na região, o próprio termômetro da violência oscilou: 1989 contabilizou 18 assassinatos. Em 96, foram 13. Contudo, entre aqueles dois momentos, o ano de 1993 registrou apenas cinco. O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), em sua home-page (página no computador), considera que os instantes mais violentos no campo, em Pinhão, ocorreram entre 91 e 92. Nos dados da Polícia Civil, 91 teve 10 assassinatos e 92 registrou 8.
O delegado Dirceu revelou estar mais preocupado com a combinação de álcool e armas: ‘‘Todo mês realizamos aqui umas duas ou três blitz para desarmar a população’’. Em outubro, houve dois casos de autuação por porte ilegal de armas de fogo. Grande parte das ocorrências policiais ficam por conta de agressões físicas por briga, mas sem uso de arma, incidentes verificados ‘‘numa média de oito a dez por mês’’.
Para debater a segurança no município, o prefeito Lupepsa anunciou que vai tentar uma audiência para a semana que vem com o secretário de Estado da Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira.Prefeito, delegado, juiz e promotora de município apontado como o 40º no ranking de violência no País lutam para reverter fama do lugar
DivulgaçãoVISTA AÉREAPinhão, a 40 quilômetros de Guarapuava, contesta índices do Ministério da Saúde com base no ano de 1997 e quer mostrar que violência diminuiuDelegado Dirceu Nivaldo de Oliveira: ‘‘O último homicídio registrado no município ocorreu em junho’’Promotora Daniele Garcez da Silva e juíz Ronaldo Sansone Guerra: esforço concentrado do judiciárioSURPRESOPrefeito Osvaldo Lupepsa: sem violência como a da pesquisa no dia a dia

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