Cesar Brustolin/SMCSInovaçãoKaio: vínculo com o mundo exterior para recuperação mais rápidaO Hospital Pinel, especializado em saúde mental, fechou 31 dos seus 80 leitos de longa permanência destinados aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas a redução na oferta não significa uma crise na instituição ou no sistema público de saúde. Ao contrário, a eliminação dos leitos está sendo incentivada pela Secretaria Municipal da Saúde porque mantém os pacientes convivendo com a família enquanto fazem o tratamento psiquiátrico no hospital durante o dia.
Os antigos leitos, onde os pacientes permaneciam internados durante pelo menos 60 dias, foram transformados nos últimos 17 meses em vagas de hospital-dia. ‘‘Nossa intenção é continuar invertendo essa relação até reduzirmos a 30 os leitos para internação convencional’’, revela o secretário da Saúde de Curitiba, João Carlos Baracho.
A filosofia de trabalho que inspira essa mudança explica o entusiasmo de Baracho. Terapia que combina o tratamento psiquiátrico à convivência familiar, o hospital-dia tem se mostrado uma bem-sucedida alternativa de substituição ou complementação da internação - o mais tradicional recurso nessa especialidade médica, mas nem por isso o mais eficiente.
Sempre acompanhados por profissionais de saúde que avaliam sua evolução, os pacientes que antes eram internados passam oito horas diárias no hospital. Nesse período, desenvolvem atividades lúdicas e artísticas que dão sustentação ao tratamento. No final da tarde, voltam para casa.
As horas passadas fora do hospital podem ser preenchidas - a critério do paciente - com cursos, trabalho remunerado ou serviços domésticos. ‘‘A preservação desse vínculo com o mundo exterior ao hospital é fundamental para que o processo de progressão do paciente seja mais rápido’’, diz o diretor interino do Pinel, o psiquiatra Sérgio Seishin Kaio.
O médico faz questão de frisar, porém, que o sucesso dessa alternativa terapêutica não significa a falência da internação de longa permanência. ‘‘Ela continua sendo necessária para tipos determinados de pacientes psicóticos e também para a desintoxicação de alcoólatras e drogados, que muito raramente conseguem superar essa fase sem supervisão médica’’, explica.
À semelhança do hospital-dia, essas duas categorias de pacientes também têm acesso a uma nova modalidade terapêutica oferecida pelo Pinel. É o Núcleo de Atenção Psicossocial (Naps), um serviço de apoio específico a alcoólatras e drogados que tenham ou não passado anteriormente pela internação tradicional. Aí estão disponíveis 70 vagas.
Desde que começou a funcionar, em julho do ano passado, o Naps já acolheu 373 pacientes. A maioria da clientela (mais de 75%) é formada por homens entre 21 e 50 anos que frequentam diariamente o serviço por mais de um mês. Assim como no hospital-dia, no Naps os pacientes também desenvolvem atividades lúdicas e artísticas. Além disso, podem aproveitar o convívio com os colegas para trocar experiências sobre o que aprenderam a partir do drama pessoal da dependência química.
Segundo a psiquiatra Domingas Marcolla, coordenadora do serviço, o Naps funciona como uma importante ferramenta de auxílio aos pacientes empenhados em se manter longe das drogas e da bebida. ‘‘Pouco adiantaria ao paciente se submeter ao longo e penoso processo de desintoxicação se, depois de superada essa fase, ele não contasse com uma estrutura que o apoiasse na luta constante contra o vício. Ele teria sérias chances de recaída, tornando mais morosa e difícil a retomada da própria vida’’, diz.

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