Guto Rocha
De Londrina
José Batista Florêncio, o Pinduca, virou gari voluntário do Parque Ouro Branco depois que decidiu plantar a grama doada pela prefeitura para a paróquia do bairro: ‘‘Faço isso porque gosto de ver as coisas limpas’’.
Sábado de manhã o vento soprava forte espalhando folhas por todo o bairro. Mas isso não desanimava José Batista Florêncio, o Pinduca, que ‘‘de teimoso’’ cumpria sua tarefa diária de manter limpas as ruas e as praças do Parque Ouro Branco (zona sul de Londrina), onde vive há 32 anos. ‘‘Faço isso porque gosto de ver as coisas limpas. O bairro fica mais bonito quando esta tudo limpinho’’, explica Pinduca, com seu jeito simples e fala pausada.
O trabalho é feito voluntariamente pelo ‘‘gari exclusivo’’ do bairro. Ele conta que tudo começou quando a Prefeitura de Londrina – ainda na primeira administração do prefeito Antonio Belinati (PFL) – doou grama para a paróquia do Ouro Branco ajardinar a praça Nossa Senhora do Carmo. ‘‘Eles jogaram a grama na praça e foram embora. Para não perder tudo, resolvi plantar para o padre’’, conta. A partir de então, Pinduca se tornou o homem da limpeza no Parque Ouro Branco.
Pinduca chegou a Londrina com 5 anos, vindo com a família de Itajubá, em Minas Gerais. O seu pai trabalhava como prensador de papel que os catadores recolhiam pela cidade. Mas, em seguida, o pai morreu e a família teve de se virar sozinha. ‘‘Com a ajuda dos padres vicentinos da Catedral, minha mãe conseguiu construir uma casinha de madeira aqui no Ouro Branco’’, diz. Ele lembra que o bairro ainda tinha resquícios de lavouras de café. ‘‘Ajudei muita gente a arrancar toco de café das datas para construir casas’’, comenta.
Seu sonho de criança era se tornar um jogador de futebol. Aos 13 anos ele frequentou a escolinha do Londrina Esporte Clube. Foi daí que surgiu o apelido de Pinduca. ‘‘O pessoal começou a me chamar assim porque, como o jogador Pinduca, eu também não deixava uma bola na nossa área.’’ Mas por causa das dificuldades financeiras da família, ele não pode dar continuidade ao sonho de ser jogador. ‘‘Parei de jogar para trabalhar em um supermercado no bairro, tinha que ajudar minha mãe.’’
Mas a sua paixão pelo futebol incentivou o dono do supermercado em que trabalhava a montar um time de futebol com o pessoal do bairro: o Comercial Paraná. Pinduca conta que ele era o responsável pela escalação do time. Mas a vida dura o obrigou a ter o futebol apenas como lazer. Ainda criança ele trabalhou como vendedor de verduras, sorveteiro e catador de papel. ‘‘Mal aguentava com o carrinho, mas a gente ia tocando’’, lembra.
Além de varrer praças e ruas, o trabalho de Pinduca inclui a pintura de meio-fio no bairro. ‘‘Virgem Maria, rapaz, já pintei meio-fio de mais de 11 quadras do bairro’’, conta orgulhoso. O trabalho agora foi suspenso, segundo ele, por causa das obras de instalação da rede de esgoto na região. ‘‘A terra retirada das valetas impede a pintura’’, diz. Ele conta que a tinta utilizada até agora foi doada pela Comurb (Companhia Municipal de Urbanização de Londrina), mas quando o trabalho for retomado a tinta será comprada pelos próprios moradores.
E as tarefas de Pinduca no bairro não param de crescer. Recentemente, a Associação dos Moradores do Ouro Branco instalou 32 lixeiras nas calçadas do bairro. A missão de Pinduca é recolher o lixo depositado nos latões e substituir os sacos de lixo. Segundo o presidente da Associação, Roberto Fu, o número de lixeiras será ampliado para 60 unidades.
O trabalho que começou de forma voluntária agora já ajuda na manutenção pessoal de Pinduca. Alguns comerciantes do bairros se cotizaram e pagam R$ 90,00 por mês para o ‘‘gari’’ continuar na limpeza do Ouro Branco. Mas para sobreviver, Pinduca também faz ‘‘bicos’’ como jardineiro, capina de terrenos e chácaras. ‘‘O pessoal do bairro vive chamando para eu limpar quintal. É tanta gente chamando que não tenho condições de atender a todos.’’
Solteiro e sem filhos, Pinduca conta que é ‘‘famoso’’ no bairro, principalmente entre as crianças. ‘‘Às vezes elas vêm me ajudar na limpeza das ruas, mas depois começam a fazer muita bagunça e acabo dispensando a ajuda.’’
E são as crianças a sua maior preocupação também. Ele reclama que a falta de um colégio estadual obriga as crianças a deixar o Parque Ouro Branco para estudar em outros bairros. Outra reivindicação que ele faz em nome das crianças do bairro é a construção de um campo de futebol. Pinduca conta que a molecada jogava na praça da igreja, e por causa dos estragos provocados no jardim que ele cuida, foi abrigado a brigar com as crianças. ‘‘Agora elas estão jogando em um terreno próximo ao posto de saúde. Mas o lugar é tão pequeno que as crianças mal podem correr.’’
Pinduca diz que muita gente fala que ele deveria se candidatar a vereador por causa da fama. Mas ele afirma que nunca pensou nisso. ‘‘Prefiro continuar ajudando as pessoas com o trabalho que já faço aqui no bairro.’’

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