O projeto de coleta seletiva e reciclagem de lixo em Londrina ainda esbarra em pelo menos um problema sério: a destinação correta de pilhas, baterias e lâmpadas fluorescentes. Segundo a coordenação de coleta seletiva do município, as pilhas recebidas nas centrais de triagem são separadas e encaminhadas para a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sema), que trabalha para normatizar o recolhimento. Mas em uma associação de recicladores visitada pela reportagem da Folha, este tipo de material não recebe tratamento especial e é vendido misturado às latas. Ali, as baterias de celular (e até aparelhos inteiros) e lâmpadas são colocados junto ao lixo que vai para o aterro sanitário.
''Nunca recebemos nenhum tipo de orientação sobre o que fazer. Tem pilha que chega enferrujada e vazando'', revela a coordenadora da ONG Associação de Recicladores Reciclando Vida, Verônica Cardoso Costa, enquanto joga algumas unidades em um tambor cheio de latas, sem usar proteção nas mãos. As lâmpadas fluorescentes, que contêm vapor de mercúrio (veja box nesta página), também são recebidas diariamente e muitas vezes são a causa de outra situação preocupante: nas mãos de crianças, viram matéria-prima do perigoso cerol, utilizado para ''incrementar'' pipas.
O pó fino e cortante resultante da destruição das lâmpadas é disputado pelos garotos, que não sabem do risco de contaminação a que estão expostos. ''Eles vêm muito aqui atrás destas lâmpadas'', confirma Verônica.
O coordenador de coleta seletiva de Londrina, José Paulo da Silva, admite que não há destinação correta para as lâmpadas fluorescentes. ''Na maioria das vezes elas vão para o aterro. Quando identificamos, recolhemos e entregamos para a Copel, mas são poucas.''
A destinação das lâmpadas ainda não conta com legislação própria, como a que já existe para as baterias de celular usadas, que devem ser recolhidas pelos fabricantes. ''Já existem empresas que condensam o mercúrio e reciclam as lâmpadas, mas este tipo de serviço não é oferecido em Londrina. É preciso desenvolver uma estratégia de coleta e envio deste material para outros centros. Do ponto de vista técnico, a solução já existe'', afirma o professor Jair Scarminio, coordenador do Laboratório de Filmes Finos e Materiais do Departamento de Física da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O Pool de Combustíveis, que adotou normas rígidas de controle ambiental para obter a certificação ISO 14001, envia para uma empresa de Curitiba as lâmpadas que não servem mais. ''Lá elas são descontaminadas'', explica José Antonio Parra, responsável pela área ambiental do Pool. A empresa mantém um depósito para armazenamento provisório de todo material potencialmente poluente como baterias , até que seja remetido de volta aos fabricantes.
Segundo o professor Jair Scarminio, a UEL pesquisa tecnologias de reciclagem de pilhas que sejam viáveis economicamente. ''Tentamos levantar a cadeia de custo de reaproveitamento destes materiais. Ao mesmo tempo, são realizados trabalhos de laboratório, para descobrir formas de aproveitamento dos eletrodos, que são os materiais mais poluentes e de mais alto custo das pilhas e bateriais''.
O professor explica que o Brasil ainda não possui um processo de coleta de pilhas bem desenvolvido, e os fabricantes não têm interesse em recebê-las de volta. ''Quem se propõe a recolher, portanto, fica com um abacaxi na mão. Ou estas pilhas vão para o lixo ou ficam armazenadas indefinidamente.''
Outro problema apontado por Scarminio são as pilhas contrabandeadas, que não obedecem legislação e não seguem controle rígido de produção, o que pode resultar em concentrações mais altas de elementos tóxicos. Segundo o professor, as empresas mais tradicionais já aboliram os grandes agentes poluidores das pilhas e baterias, que são o cádmio e o mercúrio, mas mesmo assim, a concentração destes materiais em determinado local, como lixões, pode trazer más consequências para o meio ambiente. ''Todos, em alta concentração, oferecem riscos'', diz o pesquisador.
A Sema desenvolve atualmente o Programa Desperdício Zero, que entre outras medidas, tem realizado fóruns setoriais com a participação de fabricantes de pilhas e baterias. A intenção, segundo o secretário de Estado de Meio Ambiente, Luiz Eduardo Cheida, é criar uma lei que exija dos fabricantes o recolhimento destes materiais. ''Hoje existem apenas resoluções do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) que tratam do assunto.''

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