O piercing, que durante anos foi utilizado para caracterizar tribos ou determinados grupos, se tornou requisito estético entre os adolescentes e agora vem conquistando também as crianças. Estudo sobre o perfil dos que aderem ao acessório, feito por uma médica londrinense, chama a atenção pela idade cada vez menor dos usuários. Meninos e meninas de 10, 12 anos podem ser vistos em estúdios que trabalham com piercings corporais.
  Uma das conclusões da dissertação de mestrado da médica dermatologista Lígia Márcia Mário Martin é que o enfeite passou a significar uma garantia de inserção e aceitação entre um grupo. Foram avaliadas 629 fichas cadastrais de clientes. Destas, 504 eram do sexo feminino (80,1%) e 125 (19,9%) do sexo masculino. A avaliação também mostrou que do total, 199 eram menores de idade, o que representa 31,6%.
  ‘‘Com o estudo, pude constatar que entre os homens, a menor idade encontrada foi de 12 anos, enquanto no público feminino, a idade mínima foi de 10 anos’’, afirma Lígia, para quem pais e responsáveis devem estar atentos à sexualização precoce embutida neste comportamento.
  O estudo ainda aponta as partes do corpo de maior preferência entre os adeptos. Entre as mulheres, a asa do nariz e o umbigo são quase que unanimidade. Já os homens optam pela orelha, sobrancelha e língua. ‘‘São partes que evidenciam a masculidade e o comportamento mais agressivo dos homens. Para as mulheres, a asa do nariz e o umbigo caracterizam a beleza e sensualidade’’, comenta a dermatologista, que independentemente da parte do corpo, alerta para os cuidados e conseqüências de um piercing mal colocado.
  Segundo ela, 17% dos piercings colocados apresentam algum tipo de complicação, que pode ser desde uma infecção até uma endocardite bacteriana sub-aguda (infecção do endocárdio). ‘‘As pessoas têm que estar bem informadas a respeito. O piercing não é definitivo como a tatuagem, mas apresenta os mesmos riscos’’, ressalta.
  Para ela, um dos motivos que ocasionam as complicações é a incidência de estúdios clandestinos, que não possuem normas de biossegurança e portanto, não oferecem nenhuma higiene e segurança para os clientes. ‘‘Antes de colocar um piercing, as pessoas devem avaliar as condições do local e a experiência do bodypiercing (profissional que coloca o adorno). Devem verificar se eles utilizam materiais descartáveis e esterilizados e, se possuem alvará de licença da prefeitura e da vigilância sanitária’’, indica.
  O gerente de Ação sobre o Meio da Vigilância Sanitária em Londrina, Moacir Gimenez Teodoro diz que mesmo sendo raro, já recebeu denúncias sobre estúdios clandestinos. ‘‘Quando isso acontece, vamos até o local e avaliamos se o ambiente possui os critérios obrigatórios para funcionar como uma unidade de atendimento à saúde’’, explica. Se for detectado algum risco à saúde, o proprietário pode ser autuado com uma advertência ou até a aplicação de multa seguida do encerramento das atividades.
  De acordo com Denílson Vieira Novaes, diretor da Secretaria Municipal de Fazenda, existem somente sete estúdios cadastrados no sistema do município. ‘‘É difícil dizer com precisão o número destes estabelecimentos, pois eles não estão cadastrados como estúdios de piercing ou tatuagem. Eles aparecem no sistema como comércio de bijouterias ou desenhistas. No Cadastro Brasileiro de Ocupação (CBO) existe o reconhecimento da atividade de tatuador, mas de bodypiercing nada foi constatado’’, comenta.

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