Londrina

Marcos BorgesO velho capsulador, instrumento aposentado com o advento das cápsulas modernas: muitas vezes o farmacêutico precisava usar a língua para preparar quinino contra a maláriaAlceno Segantin, 74 anos, e Luiz Lamberti, 63, têm muitas coisas em comum. Farmacêuticos provisionados na década de 70, os dois são os únicos entre os pioneiros do setor na Cidade que ainda continuam à frente de suas farmácias. Ambos iniciaram a carreira ainda adolescentes e nunca mais a deixaram. Nessas décadas, eles acompanharam todas as evoluções do setor, desde a luta para conseguir penicilina do exterior - o único antibiótico na época - e alguns retrocessos para a saúde da população como, na opinião deles, a liberação da venda de medicamentos em supermercados, prevista para breve. Com muita história para contar, eles estiveram entre os que foram homenageados, sábado, dia 5, pelos 40 anos do Sindicato do Comércio Varejista de Produtos Farmacêuticos de Londrina (Sinfarlon).

César Augusto‘‘O assalariado, que antes usava remédios dos postos, é quem mais compra nas farmácias’’
Jefferson Proença Testa, presidente do Sindicato das FarmáciasDa época em que Londrina ainda era um dos grotões do País, de difícil acesso, principalmente nas temporadas de chuva, os farmacêuticos pioneiros guardam saudades. Há 60 anos em farmácias, Segantin lembra da produção de xaropadas, poções, pomadas, pílulas, cápsulas. Até a década de 40, recorda ele, 80% dos produtos farmacêuticos eram manipulados, porque a indústria só produzia uma pequena variedade de medicamentos - ao contrário de hoje, quando a manipulação foi reduzida a um mínimo em meio à imensa variedade de remédios industrializados.
Segantin conta que em 1942 chegou a passar uma noite inteira preparando duas mil cápsulas de quinino, para medicar os moradores surpreendidos pelo surto de maleita - nome popular da malária - que atingiu Londrina. Como lembrança, ele guarda um capsulador, aposentado há mais de 20 anos, diante das cápsulas industrializadas. Para fechar as cápsulas, que então eram amiláceas (feitas de amido) e não gelatinosas como hoje, Segantin conta que usava um mata-borrão para umedecer e, muitas vezes, ‘‘era preciso usar a língua’’. O capsulador foi aposentado há mais de 20 anos.

Plantão 24 horasEm outra ocasião, foi ele quem segurou um lampião, durante uma queda de energia, para que um baiano tivesse a perna amputada no hospital onde hoje fica a loja Pernambucanas. O baiano, segundo ele, trabalhava num desmatamento quando uma árvore caiu sobre sua perna. ‘‘Isso é para ver como funcionavam as coisas.’ Entre 1951 e 1963, logo depois que comprou sua farmácia, Segantin afirma que atendia dia e noite. ‘‘Era a única farmácia na Souza Naves até a Espírito Santo (hoje são cinco, mas já foram oito). Na época não tinha plantão noturno de farmácias. Eu morava nos fundos e os doentes saíam da Santa Casa e batiam na minha janela. As crianças acordavam, a mulher ficava brava, mas eu atendia’’, diz.
‘‘Bons tempos aqueles’’, não cansa de repetir Lamberti, que começou a trabalhar em farmácias com 10 anos, em Ibiporã. A manipulação também é a antiga paixão de Lamberti, que foi passada para trás pela indústria farmacêutica. Ele lembra com detalhes do preparo dos ‘‘papeizinhos’’ para gripe, febre... Os tais papeizinhos substituíam as cápsulas quando o doente fosse criança. Ele conta que, depois de moer as substâncias a serem usadas no composto, misturar e pesar, o pó era distribuído em pequenos quadrados de papel manteiga. ‘‘Tinha remédios para todos os males e eram feitos na hora, porque sem conservantes duravam só uns seis meses’’, recorda.
Dos bons e saudosos tempos, Lamberti ainda guarda, por insistência da filha farmacêutica, algumas relíquias. Uma espécie de tigela e o socador de madeira, usados no passado para moer as substâncias, duas balanças de prato, alguns pesos, um livro de sinônimos de 1959, encapado com tecido, e alguns vidros de soro. As embalagens de vidro de soro foram substituídas pelas plásticas há uns 30 anos, calcula Lamberti. Ele afirma que, com a falta de enfermeiros na Cidade, os médicos indicavam o uso de soro e os ‘‘aprendizes de farmacêuticos’’, como Lamberti denomina, aplicavam o medicamento de casa em casa. A aplicação era manual. ‘‘A gente pendurava o vidro num prego na parede e ficava bombeando até terminar. Isso demorava até 2 horas. Como era aplicado na pele, as crianças ficavam com uma bola de soro na barriga. Só depois é que diminuía, conforme a organismo ia absorvendo. Impressionava.’
Outra procedência normal nos velhos tempos farmacêuticos - hoje impraticável - é a afiação de agulhas antes de aplicar injeções. Lamberti afirma que, com várias esterilizações das seringas na fervura, as agulhas ficavam ‘‘rombudas’’. Para reutilizá-las, Lamberti afirma que as agulhas eram amoladas numa pedra comum. O esterilizador, ele conta, era um pirex aquecido com um rabo quente (aparelho com ponta de metal que, ligado à energia elétrica, aquece a água em pequenas quantidades). ‘‘Aí chegou a estufa. Ficamos bravos porque precisa ser comprado enquanto o esterilizador funcionava tão bem. Mas foi uma das melhores coisas’’, diz.
Seguindo a evolução dos equipamentos, a estufa foi substituída mais tarde pela seringa descartável. ‘‘Foi outra briga, tínhamos muita resistência. Pra que a seringa descartável se a estufa esterilizava a 200 graus? Mas hoje não dá para imaginar o uso de seringas não descartáveis.’
‘‘Era um atendimento personalizado, quase como um médico. As pessoas eram bem orientadas pelos farmacêuticos, que procuravam se aprofundar na profissão. Hoje os farmacêuticos saem da faculdade e só pensam em se aprofundar no comércio’’, compara Segantin. O também pioneiro farmacêutico Lamberti não divide o mesmo pensamento. Na opinião dele, que tem uma filha farmacêutica e bioquímica, a faculdade oferece um conhecimento mais profundo, às vezes ‘‘quase beirando a Medicina’’. ‘‘Eu aprendi tudo no balcão. Não sabíamos, por exemplo, que medicamentos ou substâncias podiam interagir. Hoje eles sabem as substâncias que podem destruir ou aumentar o efeito de outras. Mudou para melhor.’
O amor pela profissão dos farmacêuticos pioneiros fez com que colocassem os filhos no setor. Dos quatro filhos de Lamberti, a mais nova seguiu a profissão. Formada em Farmácia e Bioquímica, Simone já acompanha o pai no trabalho e faz questão de guardar as recordações dos velhos tempos dele. Segantin conta com a ajuda de três filhos e um neto na farmácia, mas nenhum deles se interessou em se tornar um farmacêutico com diploma universitário. Mas não importa quem trabalhe com eles: tanto Segantin como Lamberti fazem questão de abrir e fechar suas farmácias todos os dias.
Tristeza e medo são os sentimentos que se misturam em Alceno Segantin e Luiz Lamberti quando o assunto é comercialização de remédios em supermercados. A liberação, de acordo com informações do Sinfarlon, deve sair nos próximos meses, através de uma portaria do Governo Federal. Os dois pioneiros do setor não duvidam disso.
‘‘Vai ser ruim, muito ruim. Não só comercialmente para as farmácias, mas principalmente para o povo’’, lamenta Lamberti. Ele teme que mesmo medicamentos que não trazem contra-indicações possam vir a apresentar resultados negativos com o uso indiscriminado pela população. ‘‘No supermercado as pessoas não vão encontrar ninguém para explicar indicações ou como se deve tomar o medicamento. Hoje as pessoas têm que ir à farmácia para comprar remédios, e por isso só compram quando precisa. Nos supermercados até a criança vai poder comprar.’
Segantin concorda que a venda em supermercados vai provocar aumento no consumo de medicamentos sem indicações. Na opinião dele, com a liberação, as farmácias deixarão de ter sentido, já que só servirão para a venda de psicotrópicos que exijam receita médica. ‘‘Essa liberação é um absurdo. Enquanto a legislação proíbe a indicação de remédios pelos farmacêuticos, o Governo libera a venda em supermercados e os meios de comunicação vendem medicamentos abertamente pelo telefone. Para que exigir farmacêutico em tempo integral nas farmácias?’
Os supermercados poderão vender os chamados OTCs, medicamentos populares que têm o uso liberado. São 120 medicamentos, entre vitaminas, antiácidos, antigripais e remédios para dor de cabeça. O lobby dos supermercados é para ampliar a lista para 1.200 medicamentos. O presidente do Sinfarlon, Jefferson Proença Testa, não acredita nessa possibilidade. Segundo ele, a ampliação da lista aumentaria custos para os supermercadistas, tornando a revenda desinteressante. Testa também teme a liberação. Na sua opinião, ela vai banalizar o uso de medicamentos. ‘‘E a situação pode escapar do controle’’, alerta.

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