A Polícia Federal de Londrina está investigando, no porto de São Francisco do Sul (SC), uma carga de exportação de madeira com destino a Portugal, com provável carregamento de cocaína escondido nos contêineres. A exportação foi feita pela empresa Arábica Industrial e Exportação de Café, Madeiras e Aves de propriedade de David Rodrigues Alfredo, sócio no tráfico de drogas do agropecuarista José Antônio Daher, o ‘‘Zezo’’. Os dois foram presos anteontem pela PF em Londrina com 300 quilos de cocaína trazidas da Colômbia. A droga era destinada (210 quilos) à Espanha e o restante seria comercializado em Brasília. Cada um deles receberia US$ 100 mil, caso o tóxico chegasse aos dois destinos.
A droga foi trazida na aeronave Aerocomander, prefixo PT-CBH/380, do piloto Cesar Rafael Ribeiro Quintana, morador em Roraima. O avião desceu em uma pista recém-construída na fazenda Santa Maria, em Ortigueira (80 quilômetros de Londrina), de propriedade de Daher. Mas devido a uma pane, o avião não levantou vôo. O piloto acabou sendo preso com um quilo de cocaína em um hotel no centro de Londrina.
Ontem, a polícia recolheu o avião no aeroclube de Arapongas (37 quilômetros a oeste de Londrina). Toda a operação de desembarque da cocaína foi gravada em vídeo pela PF. A prisão de Daher e apreensão da droga ocorreram na mansão do acusado, localizada na Rua Ademar de Barros, 163, nas margens do Lago Igapó I, área nobre da cidade.
Segundo o superintendente da PF em Londrina, Roberto Morel, há dois anos Daher e David estavam sendo investigados por informação do Departamento de Combate ao Tráfico dos Estados Unidos (Drug Enforcement Administration - DEA). Eles estariam ligados ao Cartel de Cali e intermediavam o abastecimento de cocaína para países da Europa e Estados Unidos. A droga vinha da Colômbia e da Bolívia e depois era acondicionada em frangos congelados, madeira e café (ver gráfico).
No momento da apreensão da droga, além de Daher e David, foi preso o colombiano Gustavo Adolfo Rodrigues Ni¤o, segundo a PF, braço no Brasil do Cartel de Cali. Com Gustavo foram encontrados US$ 50 mil. Junto com ele também foram presos os seus compatriotas Pedro Gaston Roberto Gomes e Carlos Mário Mejias Orosco, que moravam em um apartamento no centro de Londrina.
A Folha apurou que José Antonio Daher (Zezo), desde 1982, tinha contato com o narcotráfico boliviano. Ele seria o braço direito do político boliviano Hugo Chavez Lopez que, em 1980, foi ministro do General Luis Garcia Meza. O general, por intermédio de um golpe militar, não deixou o candidato eleito, Hernán Siles Zuazo, assumir a presidência da Bolívia. Meza não chegou a ficar um ano na presidência do país. Ele foi destituído por outro golpe militar sob a acusação de estar envolvido com o narcotráfico internacional.
Na época, Dom Hugo, como é conhecido, teria fugido, vindo morar em Londrina a convite do empresário Gilberto Yanes. O empresário residia na cidade e estava ligado à máfia boliviana da cocaína no fornecimento de solventes para refino do tóxico. Yanes morreu em 1985 em acidente aéreo no Mato Grosso do Sul.
Segundo informou um londrinense que trabalhou para o ex-ministro, Hugo, ao chegar em Londrina comprou uma mansão no Jardim Quebec e o agropecuarista foi apresentado a ele durante uma festa na casa. ‘‘Naquela época, por ordem de Dom Hugo, eu cansei de pagar a conta do seu Daher em uma mercearia onde ele comprava alimentos. A mercearia ficava perto da casa onde ele morava, na Rua Paes Leme’’, contou o antigo empregado.
Atualmente, Dom Hugo mora em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Ele está com câncer e, por razão humanitária, foi poupado de ir para a cadeia por causa da doença. A PF tem conhecimento de que, por intermédio de Dom Hugo, Daher conseguiu abrir um laço grande de amizade com mafiosos bolivianos.
Ao ser preso, Daher inocentou sua esposa e os dois filhos. Conforme o seu depoimento na PF, ele afirmou que seus familiares não participavam de nenhuma conversação ou contato com traficantes. Daher alegava que o dinheiro que conseguia era da venda de boi em suas fazendas. Em uma delas, a PF encontrou material para possível refino de cocaína. Ele e Dom Hugo respondem a processo na Justiça Federal por montar cartas de crédito de exportações fictícias de carne bovina, para receber adiantado dinheiro do governo como incentivo. As exportações nunca foram feitas e eles não devolveram o valor recebido pelos incentivos. O processo ainda tramita na Justiça.

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