Petróleo abastece a curiosidade no Norte Pioneiro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de abril de 2005
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Joaquim Távora- De tão silencioso, é um ponto onde pode-se ouvir, cristalinos, o canto do sabiá ou o ruído doce do córrego chamado de Água do Pinhal. O ar puro tem cheiro de mato e a estrada ao lado tem um tráfego pra lá de bissexto. A paz que não faz mal a ninguém está definitivamente instalada neste ponto, a 12,5 quilômetros de distância da cidade de Joaquim Távora e a 18 quilômetros da cidade de Carlópolis. No endereço, consta o CEP do bairro rural de Ribeirão do Meio, pertencente ao município de Carlópolis.
Porém, não foram estes predicados que colocaram a unidade da Sanepar e seus arredores no imaginário da população do Norte Pioneiro. Tranquilidade não é novidade nesta região. A novidade é o petróleo que começou a brotar a partir de um poço perfurado e passou a inundar sonhos de prosperidade em toda a região.
O óleo preto, viscoso e de forte odor não está à mostra, permanece no subsolo, sem que nem mesmo os cientistas possam saber sua quantidade. Mas bastaram algumas vasilhas com amostras para que o local passasse a ser visitado por muita gente, inclusive por políticos em busca de visibilidade.
José da Costa Ferreira, 36 anos, vereador de Carlópolis conhecido como Zezinho da Graciana, é um deles. Ele olha a pequena quantidade que em uma vasilha de plástico, cheira, suja os dedos. ''É difícil ter certeza, né?''. Outro vereador, Aparecido Carlos Camargo, o Carlinhos do Açougue, 37 anos, também se deslocou desde Carlópolis só para ''ver o petróleo pela primeira vez''. Alegre como uma criança, encharca um pedaço de papel com o óleo e passa, com seus olhos leigos, a analisar a combustão. ''Queimar ele queima''.
No povoado mais próximo, o distrito de São Roque do Pinhal (pertencente a Joaquim Távora), onde vivem cerca de 600 habitantes, o assunto passou a ser obrigatório em qualquer conversa. O comerciante João Coutinho Filho, 57 anos, ex-vereador (entre 1988-92) e espécie de líder comunitário, disse que agora pelo menos tem alguma coisa concreta para torcer pelo enriquecimento da região. ''Mas se não der em nada, pelo menos serviu para que nosso distrito passasse a ser conhecido em todo o Estado''.
Sua mulher, Jacira de Oliveira Coutinho, 55 anos, que mora desde o casamento no distrito, no início da década de 70, nunca tinha ouvido falar em petróleo no Norte Pioneiro. Ela fez uma brincadeira com a notícia. ''A gente precisava mesmo é de água, mas como veio o petróleo, fazer o quê?'', disse, antes de uma gargalhada.
O verdureiro Ralentin Assis Nunes, 27 anos, que mora em uma propriedade à 200 metros do poço, afirmou que ficou sem palavras quando soube da notícia. ''Jamais pensei que isto fosse acontecer tão próximo da gente''.
Na Avenida Paraná, a principal de Joaquim Távora, o petróleo também saiu das bombas dos postos de combustíveis para as praças e os balcões das casas comerciais. O aposentado Maurílio Gomes de Oliveira, de 55 anos, hoje um proprietário rural com muito tempo para conversar com os amigos, disse que está tentando controlar o entusiasmo que invadiu os moradores.
''Tenho certeza que este poço não é produtivo. É bom as pessoas esquecerem disso. Não há esperança de exploração comercial'', diz Oliveira. A convicção, segundo ele, vem das pesquisas frustradas que a Petrobrás fez na região nos anos 60/70. ''Se tivesse alguma coisa no nosso subsolo, eles jamais teriam saído daqui''.


