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Londrina

O BICHO PEGOU

Atualizado em 07/01/2022, 14:30

Petiatras levam alegria para instituições de Londrina

Projeto existe desde 2016; especialista analisa os benefícios gerados com a relação de animais e pessoas

PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de janeiro de 2022

Mariana Sanches Otta - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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Poderia ser um dia normal no Caps 3 (Centro de Atenção Psicossocial) de Londrina, com pacientes aguardando atendimento, salas de terapia ocupacional em plena atividades e acompanhantes na entrada da unidade. Mas o ambiente muda assim que  Zara e Princesa entram guiadas pela tutora Carol Thomaz Aquino. As Petiatras atraem olhares, sorrisos e, em poucos minutos, se tornam o centro da atenção de funcionários, pacientes e acompanhantes.

Recentemente, as petiatras visitaram a sede do Caps: melhora no comportamento dos pacientes

Recentemente, as petiatras visitaram a sede do Caps: melhora no comportamento dos pacientes
Recentemente, as petiatras visitaram a sede do Caps: melhora no comportamento dos pacientes |  Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 

Apesar do ar descontraído, as duas cachorras estão ali para fazer um trabalho muito sério: levar alegria para quem precisa. Fundando em 2016, o Petiatras é um projeto que busca proporcionar um momento de descontração para diferentes instituições da cidade (Caps, hospitais, Cense e ONG Viver) e precisou ser interrompido com o início da pandemia da Covid-19, em 2020. Com a melhora do cenário e o avanço das vacinas, os Petiatras voltaram a atender no Caps e, em breve, pretendem voltar a marcar presença nos outros locais.

Aquino relembra que o projeto nasceu após um encontro de Goldens Retrievers. “Alguns tutores desses Goldens, entre eles eu, vimos que eles eram muito amorosos e quisemos que esse amor não ficasse só em casa! Assim, eu, a Zara e mais três tutores começamos a ir ao Hospital Universitário de Londrina e na ONG Viver em novembro de 2016”, recorda.

PERFIL PARA SER PETIATRA

Com o avanço do projeto, muitos tutores de cachorros se interessaram pela ideia e entraram em contato com o grupo para que seus pets pudessem fazer parte dos atendimentos e visitas. Porém, é necessário um perfil específico para ser um Petiatra. De acordo com Aquino, não basta apenas ser bonzinho e sociável, o cachorro precisa ser obediente ao dono, ser calmo e saber lidar com as rotinas de visitas, afinal são públicos diversos que são atendidos pelo projeto.

Imagem ilustrativa da imagem Petiatras levam alegria para instituições de Londrina Imagem ilustrativa da imagem Petiatras levam alegria para instituições de Londrina
|  Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 

O grupo faz uma triagem rigorosa. “A gente não tem uma veterinária responsável no projeto, então cada cachorro tem que ser castrado e dar a carteirinha atestando que a saúde está ok, com vacinas em dia. Depois, vem uma triagem de socialização, tanto para o tutor quanto para o cachorro, que vão em duas visitas com os Petiatras para ver como o animal se comporta”, explica Aquino.

DIFERENTES PÚBLICOS

Já os tutores precisam estar cientes das diversas situações que irão encontrar nas visitas. Aquino reforça que os participantes do projeto precisam reconhecer a seriedade do trabalho e estarem abertos aos diferentes públicos. “Tentamos atender várias pessoas diferentes, porque pensamos assim: o cachorro não faz distinção de gente, em qualquer lugar, seja aqui no Caps, em um shopping ou onde for, ele vai tratar igual. O cachorro não julga, então a gente não está ali para julgar. A gente está no Petiatras porque acredita que esse momento é um momento que pode ser diferente na vida de alguém, que pode trazer uma felicidade ou um alívio”, enfatiza.

Carol Thomaz Aquino, tutora:  "O cachorro não faz distinção de gente, em qualquer lugar" Carol Thomaz Aquino, tutora:  "O cachorro não faz distinção de gente, em qualquer lugar"
Carol Thomaz Aquino, tutora: "O cachorro não faz distinção de gente, em qualquer lugar" |  Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha
 

TRABALHO NO CAPS

Implantado em 1996, o Caps 3 conta com atividades que têm como objetivo a reabilitação psicossocial dos pacientes em sofrimento psíquico, visando promover maior grau de autonomia e interação social. A sede ainda conta com seis leitos de acolhimento noturno e de curta permanência. Entre as diversas atividades promovidas no Centro, a visita dos Petiatras é uma das mais aguardadas pelos pacientes.

O atendimento no Caps é realizado a cada 15 dias, sempre com dois cachorros e o tutor e dura em média 40 minutos. Aquino percebe a melhora e uma mudança no comportamento dos pacientes assim que os tutores chegam com os animais. “Eu vejo a alegria deles (pacientes)! Eles esperam, sabem o nome dos cachorros e os Petiatras também conhecem cada um deles, tanto é que vão pedir carinho”, afirma.

A assistente social e coordenadora do Caps 3, Juliana Perez Moreira Baratto, explica que as visitas são sempre acompanhadas por um psicólogo, terapeuta ocupacional, enfermeira ou assistente social, que faz a interlocução dos pacientes. “A gente deixa livre para aqueles que querem participar da oficina ou não, mas é muito difícil quem recuse o convite”, enfatiza.

De acordo com Baratto, muito pacientes têm ganhos com a intervenção com os cachorros. “A gente trabalha com pacientes psiquiátricos com transtorno mental grave. Eles apresentam muito a questão do enlutamento, de uma introspecção, dificuldade de expressar os sentimentos e emoções de forma oral e o animal possibilita isso por uma outra via, em especial o desenvolvimento da questão afetiva e do toque”, explica.

 “A gente deixa livre para aqueles que querem participar da oficina ou não, mas é muito difícil quem recuse o convite”  “A gente deixa livre para aqueles que querem participar da oficina ou não, mas é muito difícil quem recuse o convite”
“A gente deixa livre para aqueles que querem participar da oficina ou não, mas é muito difícil quem recuse o convite” |  Foto: Juliana Perez Moreira Baratto, coordenadora do Caps 3:
 

'OS ANIMAIS NÃO SÃO PRECONCEITUOSOS'

A interação entre animais e pessoas aumentou significativamente nos últimos anos. A configuração desse relacionamento também mudou. Hoje, é comum que um pet seja considerado membro da família e tenha várias regalias dentro e fora de casa. Segundo a psicóloga Stephanie Temistocles, um animal é uma boa companhia e estimula diversas sensações de bem-estar e diminui o estresse.

Segundo a profissional, “utilizar animais devidamente treinados, tranquilos e saudáveis como recurso terapêutico em intervenções assistidas pode ser benéfico para as pessoas de todas as idades. Esses programas, como o Petiatras, podem ser utilizados como recursos lúdicos para a estimulação física, social, cognitiva e psicológica”.

Atendimentos em instituições como o Caps ajudam a estimular a empatia, o cuidado e a demonstração de afeto de pacientes psiquiátricos, de acordo com Temistocles. “Os animais não são preconceituosos e manifestam afeto espontâneo, o que pode encorajar diversos comportamentos dos pacientes que possuem algumas dificuldades. Pessoas com transtornos depressivos, por exemplo, precisam de incentivos para voltar a ter iniciativas e se sentirem bem novamente”, explica.

Porém a profissional reforça que “os tratamentos psiquiátricos devem ser considerados de maneira única para cada paciente, pois os transtornos psiquiátricos são multifatoriais. Uma avaliação prévia é necessária para levar em conta esse tipo de recurso, e ele deve ser aplicado desde que não haja quaisquer prejuízos para o paciente e tenha um bom prognóstico para o tratamento”.

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