Pelo menos nove pessoas que trabalharam na retirada do óleo vazado na Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), em Araucária (Região Metropolitana de Curitiba), há três meses, já apresentaram problemas de saúde, como fortes dores de cabeça, vômitos, dores no corpo, fadiga, tonturas, sangramento no nariz e manchas na pele. Esses sintomas são associados à intoxicação por benzeno, o componente mais nocivo do petróleo, altamente tóxico e cancerígeno.
O grupo é parte das cerca de 500 pessoas que foram chamadas emergencialmente a partir do dia 16 de julho para fazer a limpeza no leito e ao longo dos rios Barigui e Iguaçu, contaminados pelo derramamento de 4 milhões de litros de óleo cru (ainda não refinado). Há casos de pessoas que trabalharam nessa atividade por até 40 horas seguidas, usando apenas macacão de material plástico, luvas e botas. Alguns nem utilizaram esse último equipamento.
Devido ao perigo, há uma legislação federal específica para o manuseio de produtos que contêm benzeno. A principal delas proíbe o contato direto do produto com a pele. Os trabalhadores que retiraram o óleo não usaram máscaras e aspiravam diretamente os gases exalados. Além disso, segundo alguns deles, ouvidos pela Folha, o macacão era de material pouco resistente e rasgava com facilidade.
Os trabalhadores foram recrutados e pagos por empreiteiras de mão-de-obra contratadas pela Petrobras. Em pelo menos dois aspectos, essas empresas desrespeitaram a Constituição e a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Não contrataram formalmente os trabalhadores por tempo determinado (com registro em carteira e direito a férias, FGTS e 13º salário proporcionais). Além disso, foram contratados menores para uma atividade insalubre, o que é ilegal.
Dos nove com problemas de saúde já localizados pelo Sindicato dos Petroleiros (Sindipetro), dois são menores. J.M.S., 17 anos, trabalhou durante cinco dias na retirada do óleo. ‘‘Não me deram nem botas. No terceiro dia, joguei meu tênis e calcei uma bota suja de óleo que encontrei por lᒒ, relatou ontem o rapaz, que afirma sentir ânsia de vômito, dores de cabeça e dificuldades de visão. C.F, também de 17 anos, que trabalhou por cinco dias, têm a pele manchada e diz sentir enjôos e dores no corpo.
O Sindipetro denunciou o caso à Procuradoria do Trabalho e encaminhou o grupo para exames no Centro Metropolitano de Assistência à Saúde do Trabalhador (Cemast). Nenhum dos casos já teve diagnóstico ligando a exposição ao petróleo como causa dos problemas. Segundo o advogado do Sindipetro, Sidnei Machado, tanto as empreiteiras como a Petrobras poderão ser responsabilizadas civil e criminalmente no caso.

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