'Pessoas nos olhavam como se fôssemos ETs'
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quinta-feira, 07 de março de 2013
Érika Gonçalves Reportagem Local 
A cabo Eliana Figueiredo Costa, há seis anos na reserva, fez parte da primeira turma de formação de policiais femininas do interior, em 1982. Antes, apenas Curitiba tinha policiais femininas. Londrina foi a segunda cidade do Estado a contar com mulheres em suas fileiras.
Para Eliana, filha de PM, entrar para a corporação foi normal, mesmo aos 18 anos. "Eram 45 mulheres e uns mil homens no Batalhão. Por parte deles tivemos boa aceitação. Eles acompanharam a nossa formação, foram seis meses de curso, viam que o treinamento era o mesmo que tiveram. Não havia distinção", relata.
A vaidade era permitida, mas com discrição. Cabelos presos, brincos pequenos, maquiagem e esmalte claros. Pulseiras, colares e anéis só fora do horário de trabalho, até por questão de segurança. "Se você entra em um confronto, em briga de mulher, a primeira coisa que fazem é pegar no cabelo. Um brinco pode rasgar a orelha. Quando se está sem farda não há restrição, mas é preciso ter um comportamento para não denegrir a imagem da corporação."
O mais complicado, segundo ela, foi ir para a rua. "As pessoas nos olhavam como se fôssemos ETs. Eles não levavam muito a sério mulher fardada, com arma na cintura. E eram todas meninas de 18 anos, bonitas. Quando chegávamos para abordar os homens eles faziam gracinhas, pediam para ser algemados, presos. Havia também aqueles que achavam que nós não éramos muito femininas, que queríamos trabalhar como um homem. Temos menos força física, mas fazíamos judô, então podíamos dominar um homem pela técnica. Aí eles começaram a acreditar mais", relembra.
Da parte das mulheres, Eliana conta que o tratamento também era "estranho". "Elas nos chamavam de 'policinhas', guardinhas. Não sei se era carinhoso ou se elas achavam que a gente estava na rua só para dar informação."
Depois da formatura, conta, fizeram estágio para ver onde cada uma se adaptava. Eliana informa que trabalhou em vários setores. "O que eu fiquei mais tempo de serviço foi no trânsito. Antes ficávamos nas ruas, fazendo o policiamento. Tinha a equipe de blitz, a equipe de moto. Trabalhei na Rádio Patrulha, na Patrulha Escolar, no Pelotão de Choque, no serviço reservado, no serviço interno, quando fiquei grávida, fui relações públicas e também fiquei um tempo como secretária do coronel", enumera.
Revista
A única "regalia" a que as mulheres têm direito é que durante a gravidez passam a fazer serviço interno. "A maioria dos policiais é pai, entende o que a gente está passando, apoia. Eles cuidavam das mulheres como se fôssemos irmãs deles", atesta.
Um dos pontos delicados, quando trabalhava nas ruas, era a revista durante a abordagem. Se hoje o procedimento é feito por um policial do mesmo sexo de quem é revistado, no início, por não haver policiais mulheres, essa regra não existia. "A gente dizia que policial em serviço não tem sexo, mas era meio complicado."
Um dos episódios mais perigosos de sua carreira aconteceu durante a passagem pelo Pelotão de Choque. Em uma perseguição a uma dupla de assaltantes, que já havia matado o vigia de um posto de gasolina, ela se viu frente a frente com um deles. Conseguiu desarmá-lo apontando uma espingarda, que, só depois, descobriu estar sem munição, por já ter sido disparada durante a perseguição.
"Eu tinha o meu revólver, mas nem pensei nisso. Já era casada, tinha filhos. Depois me deu uma tremedeira, é por Deus mesmo, que nos protege. Quando o policial sai de casa não sabe o que vai acontecer. Se você tem filho, você liga para a empregada, pede para ela fazer hora extra."
Eliana conta que já atirou para advertir, mas que nunca precisou ferir ninguém. Em todos os anos de profissão, o ferimento mais sério que sofreu foi uma facada na mão, ao deter um homem.
Na família de Eliana, além do pai, o marido também é policial militar. "Nos conhecemos já na polícia. Acho que é até melhor, devido às escalas, todos os dias, inclusive nos feriados. Acho que ele compreende melhor, sabe como funciona, me dá apoio." Os dois filhos, segundo ela, não desejam seguir carreira. Aliás, foi para ficar um pouco mais com a filha adolescente que ela pediu para ir para a reserva, depois de 25 anos de trabalho.
"Já estava um pouco cansada também. Depois de três meses em casa, comecei a sentir saudades. Depois foram aparecendo diversas coisas para fazer em casa, tenho trabalho voluntário, um grupo de amigas que se reúne semanalmente. Mas a gente nunca deixa de ser policial", admite.


